A sombra do outro presidente

Dois meses antes das eleições presidenciais, um rapaz chamado Alex escreveu uma carta a Barack Obama. "Caro senhor presidente, lembra-se do menino que foi salvo por uma ambulância na Síria? Será que pode ir buscá-lo e trazê-lo para nossa casa?" Alex, do alto dos seus 6 anos, queria cuidar do menino que foi fotografado coberto de sangue e poeira após um ataque do regime em Aleppo. Obama ficou tão tocado com a carta que leu alguns excertos nas Nações Unidas, e convidou a família do rapaz a visitar a Casa Branca.

Quis o destino que essa visita acontecesse precisamente no mesmo dia em que Donald Trump foi à Casa Branca pela primeira vez como presidente eleito. Pete Souza, o luso-descendente que foi fotógrafo oficial de Barack Obama durante os seus dois mandatos, captou com a sua lente a coexistência dos dois mundos nesse dia. Um menino que queria salvar o refugiado sírio, e o milionário que venceu com a promessa de não deixar mais ninguém entrar.

No livro de fotografias que Pete Souza acaba de editar, Obama: An Intimate Portrait, a memória dos oito anos de Yes, We Can na Casa Branca pesa como cimento. As milhares de imagens que contam a história extraordinária do primeiro afro-americano eleito presidente mostram alguém dedicado, trabalhador, profundamente consciente da responsabilidade que tinha sobre os ombros. É um retrato lisonjeiro, certamente, onde não cabem críticas à política externa nem revelações sobre os programas de espionagem da NSA. Mas não há nódoas suficientes na manta de Obama para que seja difícil a comparação com os traseiros que hoje se sentam na Sala Oval. A presidência de Donald Trump, e por consequência o ambiente social e económico que se vive, é uma espécie de upside down. Uma cópia imperfeita da realidade, onde abundam perigos e o ar é tóxico. Os escândalos sucessivos têm agora um efeito anestésico. "Ah ele pagou uns milhões para calar uma prostituta, com a qual traiu a mulher Melania? Que bocejo." A revelação que acabaria com uma presidência no passado é agora recebida com um encolher de ombros. "Ah o sistema de emergência no Hawai mandou as pessoas refugiarem-se por causa de um falso ataque com míssil balístico? Acontece." O presidente chama "países de merda" ao Haiti e El Salvador, e a comitiva do costume acorre para defender as suas palavras, dizer que é, no fundo, o que toda a gente pensa. Aquilo que acabaria com a reputação de qualquer político é uma vírgula no discurso dos conservadores. Corremos o risco de ficar encurralados no upside down e começar a achar que estamos no lado certo da realidade.

"Um dos maiores desafios que temos na nossa democracia é o grau com que não partilhamos um patamar comum de factos", disse Obama, numa entrevista-surpresa no novo programa de David Letterman no Netflix. "Se você vê a Fox News, vive num planeta completamente diferente de quem ouve a NPR." O regresso de Obama não foi pautado por declarações bombásticas, e nenhum dos dois quis descer ao pântano do que tem acontecido na Casa Branca.

Mas o legado de Obama assombra o ocupante do número 1600 da Pennsylvania Avenue, de tal forma que não passa uma semana sem que refira o seu nome. A obsessão em desfazer o que Obama fez não tem apenas motivações políticas. A mania de atribuir a Obama iniciativas que não teve - por exemplo, a venda da embaixada americana em Londres, que foi autoria de George W. Bush - demonstra uma fixação em demonizar o antecessor. Nem sequer tenta esconder o ódio aos Estados democratas, em especial à Califórnia, que culpa por ter perdido o voto popular. Sempre que a conselheira Kellyanne Conway vai para a CNN dizer que este presidente está a unir o país, ouço a música do genérico de Stranger Things na minha cabeça.

A tentação é desligar, não querer saber mais disto, ir dar uma volta ao Griffith Park, tentar pôr as coisas em perspetiva. Depois descobre-se que se vai pagar mais impostos, porque a reforma fiscal pune os Estados democratas; que os vistos para imigrantes qualificados também vão ser drasticamente reduzidos; que o governo federal voltou a autorizar a exploração de petróleo na costa da Califórnia, apesar dos riscos ambientais que isso acarreta; e a distância daqui a Washington parece encurtar-se. Estamos encurralados neste ciclo estonteante de más notícias, que beneficiam uma parte específica da população e mandam o resto quilhar-se.

"Se estás a trilhar o caminho certo e estás disposto a continuar a andar, eventualmente farás progresso", disse um dia Barack Obama. A próxima caminhada é este fim de semana, quando milhares de pessoas saírem às ruas novamente para a Marcha das Mulheres. Não será tanto um protesto como uma afirmação: a resistência não dorme.

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