O nuclear

Os custos humanos e materiais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não tinham sido ignorados pelo ensino que levou à revolta generalizada da juventude americana quando, na década de 60 do século passado, os EUA se envolveram na guerra do Vietname. A lembrança das consequências do uso da arma atómica fez circular, por esse tempo, um episódio passado numa universidade da Califórnia em que a multidão que assistia a um curso do currículo nuclear acompanhou o orador no grito - "fora com a civilização ocidental".

Essa revolta da juventude alastrou entre os estudantes europeus, levou o próprio De Gaulle a procurar a garantia do Exército francês que estacionava na meia Alemanha democrática, não ficaram tranquilos os jovens de Inglaterra e da própria Alemanha a participar na revolta, tendo despertado também entre nós as vontades jovens de criar um novo futuro, tudo provocando um abalo no Ocidente que ia perdendo o domínio de colonizador.

A advertência que os investigadores que tinham conseguido dominar a energia atómica fizeram no sentido de que nenhum governo a deveria utilizar não impediu o bombardeamento do Japão, e os resultados desse bombardeamento o que produziram foi uma política de reserva do poder, desencadeando um processo de impedimento de multiplicação das soberanias titulares. Este método era um corolário do princípio da hierarquização aristocrática das potências pela dimensão do poder, sobretudo militar, que levou à dignificação de cinco com o direito de veto no Conselho de Segurança.

A experiência, mais uma vez, mostrou que o saber não pode ser condenado a segredo perpétuo, e hoje uma ameaça global é a possibilidade de uma cascata atómica destruir o planeta. Com a agravante de ser evidente o perigo - lembrado por Bismark numa época que, em comparação com a atual, era menos sombria - de uma simples leviandade poder conduzir a um desmedido desastre.

Neste cada vez mais inquietante 2019 já era suficiente o alarme causado pelas leviandades no diálogo com a Coreia do Norte. Mas a situação piorou com o teor da relação dos EUA, primeiro detentor do poder atómico, com o Irão. Como o responsável mais significativo parece não ter em conta que lida com um povo de longa história e orgulho nacional, os riscos aumentam, o que justificou a intervenção ponderada do governo de França, tentando travar a escalada com Washington. Segundo o Eliseu, "a margem de ação para evitar uma destruição do tratado (que limita o Irão neste domínio) é estreita. É um frágil fio". O frágil fio tem parte aparente da sua debilidade no facto de o interlocutor americano se considerar mais poderoso e com um poder de destruição que lhe permite insistir nos superlativos, não parecendo entender que o Irão, quando lhe responde que não quer a guerra mas que não a teme, está inspirado por uma história secular de participação ativa na evolução do mundo.

É verdade que o Acordo de Viena de 2015, que foi assumido para controlar o programa nuclear, começou a mostrar enfraquecidas algumas das medidas acordadas, o que determinou ameaças de Trump vistas como "consideravelmente duras". É para impedir o agravamento da situação - que se torna particularmente perigosa pelos incidentes que se multiplicam no mar de Gibraltar a Ormuz - que a França presta um serviço valioso assumindo o encargo e o risco de não deixar quebrar o "frágil fio" que separa a razoabilidade e a responsabilidade do desastre.

Quando o governo do Irão considera que a apreensão do seu navio Grace 1, ao largo de Gibraltar, foi um ato de pirataria, o ambiente é de arena, quando, sendo o ato inglês apontado como pedido pelos EUA, este o considerou "excelente notícia". A intervenção da França merece o apoio da União no exercício da sua diplomacia; trata-se, como disse Macron, de fazer face "ao risco de novo enfraquecimento do acordo nuclear". Um risco que não diz apenas respeito aos intervenientes no conflituoso diálogo, porque as interdependências das sedes do globalismo implicam também um abalo global.

Aquilo que na crise climática já não permite a nenhum povo, Estado ou governo assumir-se imune é, ou deveria ser, suficiente para desencadear o esforço das instituições supranacionais e dos povos informados no sentido de impedir que responsáveis levianos quebrem o "frágil fio" que nos separa do desastre.

Em poucas semanas, é a segunda vez que a França dá o exemplo de não ficar neutral e ausente perante riscos evidentes, embora seja também evidente que a comunidade internacional tem de segui-la em termos de pôr um ponto final nas leviandades.

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