A paz e a leviandade

As relações entre a Presidência dos EUA e as duas Coreias, infelizmente, não obstante a alta importância dos titulares do poder político envolvido, recordam inevitavelmente a observação que se atribui a Bismark de que uma pequena leviandade pode desencadear grandes catástrofes, designadamente de confronto militar entre as potências. Não são de omitir as mensagens de homens como o Abbé de Saint- Pierre (1713), ou a famosa meditação de Kant na sua famosa Paz Perpétua de 1795, para não confundir o objetivo que se propunham com a chamada "pax romana", ou "pax britânica", ou ainda "pax russa", porque estas se referem a realidades imperiais, e portanto se referem mais a uma forma de "ordem internacional" imposta do que a palavra paz exprime. Como nestas hierarquias é uma questão de interesses, em geral extrativos, que traduz o princípio da organização que a expressão deturpadamente exprime, a ideia de "coexistência pacífica" que foi usada no fim da Primeira Guerra Mundial para referir a desejada coexistência entre o então secularmente imposto regime russo e os Estados seus vizinhos, e de novo foi usada em várias outras circunstâncias, de regra não encontrou acatamento suficiente para evitar mais de um dos conflitos que foram acontecendo, incluindo a Segunda Guerra Mundial. Talvez hoje o significado mais genuíno que se lhe deve dar seja o de eliminar a violência, que não é necessariamente militar, porque há formas intermédias que por vezes induzem a evitar o pior. Esse parece o melhor e mais abrangente sentido para as iniciativas a favor da paz, como a que recentemente teve lugar na sala das sessões da Assembleia da República, levada a cabo pela Universal Peace Federation, tratando das "Perspetivas para a Paz Sustentável na Europa e no Mundo: a Responsabilidade dos Parlamentares". Também é o sentido profundo da Mensagem do Papa Francisco de 1 de Janeiro de 2017 no 50.º Dia Mundial da Paz, quando disse que "a violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinados a fins militares e subtraídos às exigência do dia-a-dia das jovens famílias em dificuldades, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, senão mesmo de todos". A leviandade das palavras, em que o atual conflito se mostra orientado para ser o caminho habitual, também corre sem pensar na eventual violência que produzirá, porque há valores, ainda quando apenas nacionais, nem sequer ideológicos, que não se conservam sempre tranquilos. É um cuidado que a considerada patriótica inovação da America First não parece tomar em consideração. Tem de salientar-se que a inquietação pela paz não é apenas ocidental, mesmo nos sentidos mais rigorosos da violência militar, e, como exemplo, são de meditar comentários de Sua Santidade o Dalai Lama, que tive a honra de apresentar, faz anos, na Reitoria da Universidade de Lisboa, e que, depois dos largos anos sobre a violência que o expulsou do seu país que é o Tibete, declara não ter inimigos, e depois de chamar a atenção para a educação, respeito, tolerância, dedicação e não violência, que faltaram no ataque à sua comunidade, fez todavia esta advertência ao Presidente dos EUA: "O futuro da América depende da Europa e o futuro da Europa depende dos países asiáticos. A nossa realidade é que dependemos uns dos outros. Os Estados Unidos são uma nação de pessoas no mundo livre. Por essa razão, o presidente dos EUA deveria pensar mais nas questões a um nível mundial, os EUA continuam a ser muito poderosos... Com essa preponderância, os EUA deveriam colaborar mais estreitamente com a Europa." Não se trata de ocidentais, de atlânticos, de democratas, de cristãos, trata-se de "um apelo ao mundo", ao qual, dessa parte do mundo que foi largamente subordinada à ordem dos ocidentais, vem este apelo para "o Caminho da Paz em Tempos de Discórdia". Com esperança de ser entendido a tempo. A ONU é hoje desafiada pela expressão de algumas vozes que falam na necessidade de recriar uma "ONU da Paz", o que parece cada vez mais exigente de vozes concordantes no sentido de evitar mais um desastre mundial. A perigosa fragilidade demonstrada pela arena mundial a que conduziu o globalismo sem governança, tornou-se alarmante com o facto de o gesto de um só homem ter agravado o destino da cidade santa. O Conselho de Segurança não deu mostras de se sentir atingido.

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Ferreira Fernandes

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.

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Viriato Soromenho Marques

A política do pensamento mágico

Ao fim de dois anos e meio, o processo do Brexit continua o seu rumo dramático, de difícil classificação. Até aqui, analisando as declarações dos principais atores de Westminster, o Brexit apresenta mais as tonalidades de uma farsa. Contudo, depois do chumbo nos Comuns do Plano May, ficou nítido que o governo e o Parlamento britânicos não só não sabem para onde querem ir como parece não fazerem a mínima ideia de onde querem partir. Ao ler na imprensa britânica as palavras de quem é suposto tomar decisões esclarecidas, quase se fica ruborizado pelo profundo desconhecimento da estrutura e pelo modo de funcionamento da UE que os engenheiros da saída revelam. Com tamanha irresponsabilidade, não é impossível que a farsa desemboque numa tragicomédia, causando danos a toda a gente na Europa e pondo a própria integridade do Reino Unido em risco.