A direita da sociedade aberta

Nas duas últimas semanas procurei explicar por que razão me parece profundamente errada a tese de que a direita só pode crescer e afirmar-se enquanto violento contraponto à esquerda.

Errada no princípio, porque nenhuma alternativa política se afirma sustentavelmente enquanto mera oposição a outra. Errada no método, porque acantonaria a direita numa posição reativa, transformando-a num catálogo de reações e não numa proposta positiva, inspiracional, motivadora. E errada na oportunidade, porque os tempos de radical transformação em que vivemos, da economia digital à inteligência artificial, oferecem à direita um espaço natural de afirmação, permitindo-lhe surgir como um projeto liderante, obrigando a esquerda a aparecer atrasada, incapaz de perceber o mundo.

É chegada a hora de descrever de que forma deve essa afirmação ser feita. Como tenho referido várias vezes, a grande questão do nosso tempo, impulsionada pela globalização e intensificada pela revolução digital, é a mudança: como reagimos ao novo, ao que nos interpela? Essa mudança sente-se em todos os campos das políticas públicas e a um ritmo invulgar: novas formas de trabalho, novos modelos de negócios, novas formas de produção, novos empregos, novas empresas, novas formações, novas necessidades.

Como reagir a isto? Há três formas.

A primeira passa por negar tudo isto, dizer que as transformações são aparentes ou triviais, pelo que não temos de alterar quase nada nos nossos modelos de desenvolvimento: não há que olhar para os impactos do desafio demográfico nos sistemas de saúde, não há que cuidar da sustentabilidade dos sistemas de previdência social, não há que agilizar os enquadramentos laborais e fiscais, não há que atualizar grande coisa nos sistemas de ensino. É o que acontece muitas vezes aos partidos do centro, que receiam, com a sua ação, desagradar aos seus eleitores, preferindo garantir-lhes que nada se passa, confundindo governação com mera gestão.

A segunda passa por encarar estas mudanças como algo de negativo, que vem alterar o statu quo, pelo que há que impedir a todo o custo que estas mudanças se verifiquem: há que proibir novas modalidades de negócio que coloquem em causa as existentes, há que impedir alterações aos modelos de trabalho, há que evitar a abertura de fronteiras a novas empresas ou a novos concorrentes, há que fechar o país numa zona de segurança não sujeita a qualquer desafio externo. É o que acontece com a extrema-esquerda e com a extrema-direita, que se opõem a qualquer ponderação global, que acreditam mesmo que um país isolado, de fronteiras fechadas, consegue prosperar em tempos destes.

A terceira passa por aceitar a mudança, perceber o quanto ganhámos com a globalização e com a economia de mercado, rejeitando em absoluto a tese, nunca provada, de que vivemos hoje pior do que vivíamos há duas décadas, pelo que há que aceitar e defender e lutar pela sociedade aberta: desenvolver os melhores enquadramentos para aproveitar todas as oportunidades, e mitigar todos os riscos, trazidos pela mudança num mundo global. A direita europeia deveria centrar-se nesta terceira postura, assumindo-se como o espaço político que está em melhores condições de levar os seus países a atravessar a mudança, precisamente por ser o único espaço que a aceita e percebe.

Na próxima semana, concluindo esta série de artigos, identificarei, com este enquadramento, as linhas gerais de um projeto político positivo e liderante da direita europeia, que só pode passar pela afirmação de um valor que a direita conhece bem: a liberdade.

Advogado e vice-presidente do CDS

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