Travar a maré com as mãos

Enganou-se quem pensou que a eleição de Barack Obama para presidente em 2008 tinha posto fim à questão racial nos Estados Unidos. A denúncia recente da violência policial sobre os negros e agora esta polémica sobre estátuas de heróis da Confederação derrubadas mostram que apesar do sucesso de imensos afro-americanos em todos os setores da sociedade, do desporto ao mundo empresarial, passando pelas artes e até pela política, muito caminho continua por fazer.

De repente, as atenções centraram-se em Donald Trump, acusado de ter sido tardio e suave na condenação dos supremacistas brancos que em Charlottesville se manifestaram contra a retirada da estátua de Robert E. Lee. Mas por muito criticável que seja o sucessor de Obama na Casa Branca, o conflito racial latente não começou com ele e muito provavelmente persistirá depois dele. Na verdade é tão antigo como o país, com os pais fundadores a não serem capazes de acabar com a escravatura e esta a persistir ainda quase um século no Sul, com a Confederação a ser uma tentativa desesperada de a manter, por fim derrotada pela União liderada por Abraham Lincoln. Mesmo assim, durante um século depois da Guerra Civil, os negros continuaram segregados em boa parte dos Estados Unidos, pelo que a igualdade perante a lei é algo que só chegou nos anos 1960.

A demografia, tanto como a aplicação da lei, ajudará a minorar o problema: o número de casais mistos aumenta na América, cada vez mais as grandes cidades são tão diversas que os brancos até já podem ser uma minoria. Mas tentando parar uma maré com as mãos, os racistas lutarão até esgotarem as suas forças, até porque se sentem mesmo ameaçados e na verdade nenhum dos dois grandes partidos os apoia. O mínimo que se pode esperar de alguém no topo é que não lhes dê qualquer sinal de tolerância.

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