Um governo em falha técnica

Não chega continuar a tentar esclarecer mortes, é preciso evitá-las. Não chega apregoar consternação e pesar pelas vítimas à porta do sítio da moda por estes dias em Lisboa. Não serve. António Costa não pode declarar a dor à entrada da Web Summit, onde vai estar minutos depois em registo de governante-bué-entusiasmado-com-novidades-bué-de-fixes, e enviar para uma declaração de circunstância um ministro que se limita a falar de uma "falha técnica" e prometer o proverbial inquérito. Parece inteligência artificial, mas não é. É apenas o governo a ser governo, o braço executivo a limitar-se a ser... executivo. Não chega.

À hora a que escrevo há 35 pessoas infetadas - cinco ainda nos cuidados intensivos - e dois mortos, num hospital do SNS. Como se tudo isto não fosse suficiente, e estamos a falar de cidadãos que foram procurar tratamento de rotina num hospital público e acabaram infetados com uma bactéria potencialmente mortal, o Ministério Público decidiu pedir à PSP que "levantasse" os corpos dos velórios para autópsia. A meio da noite, com as famílias já a lidar com o luto. Não consigo imaginar o que terão sentido essas famílias. Os senhores do MP não conseguiram antecipar que seria preciso um inquérito, que seria necessário tentar perceber ao certo como morreram aquelas pessoas? Tiveram de esperar pelo início dos velórios?

Estamos entretanto descansados porque o ministro da Saúde já garantiu que vai "densificar a malha inspetiva" e "criar um quadro sancionatório mais agravado" quanto aos mecanismos de controlo da qualidade do ar nas unidades de saúde públicas. E não foi, neste caso, diz o ministro, um problema de falta de investimento. Os equipamentos eram recentes. Ficamos muito mais descansados. Quer dizer, portanto, que estive com o meu filho há dias num grande hospital público de Lisboa e a "malha inspetiva" não estava devidamente intensificada e o "quadro sancionatório" era levezinho? É sempre bom de ver que o governo mantém a coerência do discurso tecnocrático quando ele é menos tolerável - no momento do confronto com a dor da perda, com a morte.

Mais uma vez, tal como no rescaldo do braseiro de junho e outubro, não se espantem se encontrarem o Presidente da República por aí, a preencher vazios políticos, a soltar afetos e a fazer as perguntas certas, enquanto os "executivos" se enredam numa teia discursiva incompreensível e inaceitável perante algo com que aparentemente não sabem lidar - a morte. Já agora, não teria ficado mal ao PSD esperar um pouco antes de cavalgar o momento. Mais do que nos incêndios, falar de falhanço do Estado à porta de um hospital, já com duas mortes confirmadas, não só é aproveitamento político como causa alarme nas populações que mais podem precisar daquele serviço público. Era de evitar.

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.