O último político feliz que conheci

Com a morte de Jorge Sampaio, deixamos de ter entre nós os dois Presidentes em democracia que foram efetivamente antifascistas e combatentes diretos antes do 25 de abril de 1974 por uma democracia e contra um regime autoritário, arbitrário e injusto.

Ramalho Eanes tem inúmeras virtudes, uma sabedoria intrínseca e uma decência humana que é inegável. Cumpriu um papel que poucos poderiam assumir e com uma grandeza que é a sua. Cavaco Silva fez um percurso em que, creio, procurou fazer o melhor que sabia e podia.

Mas Mário Soares e Jorge Sampaio arriscaram o que não podiam, de si e dos seus, sem a certeza de qualquer desfecho a seu favor, apenas por aquilo em que acreditavam. Ofereceram-se à República e à democracia, ambos com vida profissional anterior, prévia à atividade política, de valor, indo a votos. Ambos, nos anos 60 e 70 do século XX, sem garantias de qualquer regime ou resultado a seu favor, antes pelo contrário, arriscaram o seu conforto e da sua família por causas em que acreditavam e por outros.

Isto hoje parecem apenas palavras benévolas. Na época não o eram.

Marcelo Rebelo de Sousa, o atual presidente de todos os Portugueses, era, ao tempo, um afilhado político e profissional do último Presidente do Conselho da Ditadura e um "enfant terrible", permitido e diletante, num jornal que existia, apesar de tudo, com uma bonomia, mesmo que exigente, da ditadura. É bonito que se incline perante a herança e a memória de Jorge Sampaio. Fá-lo em nome de todos nós. Não voltará a existir outro igual.

Apenas estive pessoalmente uma vez com Jorge Sampaio, pouco tempo depois de ter sido eleito Presidente. Foram poucos momentos cara a cara. Num evento, sem imprensa, em que estiveram jornalistas conceituados, pessoas com currículo profissional e político de relevo e alguns jovens estudantes universitários de quem se esperava alguma coisa. Era 1996 ou 1997. Eu estava, naturalmente, nesta última categoria, apesar de a ter defraudado, noto-o agora...

Guardo apenas a memória de alguém que manifestamente sabia muito, mas nem por isso perdia a curiosidade pelos outros, o que não é fácil. De alguém que gostava, portanto, de ouvir outras pessoas e delas reter o mais significativo. E de um homem consciente do privilégio que assumia, ao ser Presidente da República, e que o tornava um dever único e irrepetível. As palavras que trocámos ficarão entre nós, mas apenas me orgulham por ter ali estado.

Nessa noite, proporcionado pela Presidência de Jorge Sampaio, num jantar simples que se seguiu a esse encontro, conheci alguém que ficou meu amigo para a vida, apenas porque ficámos frente a frente nessa mesa e conversámos o resto da noite. Já passaram quase 25 anos. Jorge Sampaio mudou a minha vida e nunca o soube. Seguramente fê-lo em relação a muitos. E a todos nós.
E o que nos pode deixar Jorge Sampaio, depois da sua morte, e para além de tudo o que fez por Portugal?

De um homem que se emocionava, que assumia com seriedade os seus deveres públicos, que tinha a consciência da unicidade do seu tempo e do seu papel político, apenas me permito dizer algo que ainda não vi dito: acredito que era um homem político feliz, num tempo em que tudo o que rima com política é apoucado. No que também é um exemplo. Não pela ideia de completude do trabalho, não pela certeza absoluta do acerto em tudo o que fez e disse. Mas pela serenidade e convicção que creio que punha no que fazia. E há seguramente poucos políticos felizes, normalmente porque vivem a intensidade das notícias circunstanciais na imprensa e dos problemas da realidade como algo que os ameaça e potencialmente diminui e com os quais têm de lidar, com a tensão, a imediatez e o primarismo que entendem que é o que se espera no nosso tempo e de todos os eleitores.

Acho mesmo que Jorge Sampaio foi o nosso último político feliz, apaziguado, firme, por contrafactual que isto pareça. Um dia, seguramente, daremos ainda mais valor a isso.


Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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