O turbilhão em que nos querem meter

A Assembleia Geral da ONU deverá hoje reeleger António Guterres para um segundo mandato. O primeiro não foi fácil, por várias razões, incluindo o facto de Donald Trump ter sido presidente dos Estados Unidos quatro dos últimos cinco anos. Trump não tinha o mínimo interesse pelo multilateralismo. Era, para mais, imprevisível e esdrúxulo em matérias de política internacional. Parecer que se estava a contrariar as suas teses seria uma espécie de suicídio político. Isso contribuiu fortemente para a redução do espaço de manobra do secretário-geral. Guterres concentrou-se então em quatro grandes áreas: na agenda da paridade, particularmente no interior da organização, onde conseguiu com sucesso implementar uma política de promoção de mulheres para postos de topo; nas alterações climáticas; na resposta humanitária; e na procura de soluções para crises em países onde não entrasse em choque com os membros permanentes do Conselho de Segurança. Procedeu, igualmente, a algumas reformas internas, nomeadamente do organigrama e da representação da ONU ao nível dos países.

O segundo mandato vai ser ainda mais difícil. As cimeiras dos últimos dias - G7, NATO, UE-EUA e Biden-Putin - mostraram que se entrou numa fase muito complexa dos jogos mundiais de poder. Podem tirar-se várias conclusões do que foi dito. Nenhuma delas coloca as Nações Unidas no lugar onde deveriam estar, como plataforma de convergência entre interesses opostos. Nessas cimeiras, certos intervenientes adotaram uma linha de confrontação, e outros deixaram-se arrastar. Mesmo quando o tom é calmo, como aconteceu no encontro entre Biden e Putin, não podemos cair em ilusões: cada um mantém as suas posições e vê o outro como o lado hostil. É uma nova era de desconfiança e de conflitos diretos entre as superpotências, fora da ordem internacional estabelecida.

Mais concretamente, trazer a rivalidade com a China para o campo militar e incluí-la abertamente na agenda da NATO é um erro. É verdade que os dois parágrafos dedicados no comunicado final às relações com a China são mais brandos do que as mensagens divulgadas, antes e durante a reunião. Mas, no essencial, estamos a dar motivos a Beijing para que reforce a cooperação de defesa com Moscovo e aumente a sua participação em exercícios militares conjuntos com os russos, incluindo em regiões próximas das fronteiras da União Europeia. Se temos críticas a fazer, nas áreas dos direitos humanos e da liberdade, da competição comercial desleal, ou, ainda, quando a China leva certos países a um endividamento excessivo, com investimentos em infraestruturas que servem, acima de tudo, os seus próprios interesses, façamo-las nos fóruns políticos apropriados.

Quando se aposta, como foi feito ao longo da semana, na confrontação e na política de blocos, está a comprometer-se de modo quase irremediável o funcionamento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O veto transforma-se então na prática corrente. Daí resulta o enfraquecimento da ONU e a marginalização dos seus dirigentes, a começar pelo secretário-geral. E tudo isto está em contradição com as repetidas promessas de reforço do multilateralismo, que constam dos documentos aprovados nas reuniões do G7 e da NATO.

Logo após a sua investidura, Biden decidiu fazer o seu país voltar ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, como observador e para o tornar mais pertinente. Essa é uma decisão mais sábia do que avançar com a intenção de convocar uma conferência das democracias, assunto que esteve de novo em cima da mesa, durante as cimeiras com os aliados. Uma conferência desse tipo, que deveria incluir os bons e excluir os maus, segundo os critérios de Washington, dividiria ainda mais a comunidade internacional e colocaria a ONU numa situação extremamente delicada. Para ajudar o sistema multilateral e contribuir para o desanuviamento do turbilhão que se perfila no horizonte, a União Europeia não deve apoiar uma iniciativa desse género. Como também não pode andar a reboque de nenhuma superpotência. É precisamente para evitar isso que existe um projeto comum e se fala tanto do aprofundamento da soberania europeia.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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