O Sócrates da direita

António Costa sairá desta eleição como entrou: derrotado. O seu objetivo primordial e o único que o soltaria das amarras a que se prendeu ‒ a maioria absoluta ‒ é algo cada vez mais distante, quando não risível. A chave para abrir essa camisa de forças ‒ eleger 116 deputados do PS ‒ não só parece improvável de obter, como a possibilidade de ficar atrás do PSD começa a ganhar corpo. Em entrevista dada esta semana, o primeiro-ministro não se desviou do apelo ao voto útil, que inevitavelmente destrói as pontes em que antes bailou. Não conversa com a direita, não confia na esquerda, não ambiciona a Europa, nem irá para Belém. É o tudo ou nada de António Costa nestas legislativas, no paradoxo que é ver quem diz representar "estabilidade" ser o único que ameaça bater com a porta se não lhe derem o que pede.

Todas as bandeiras de Costa, aliás, têm tendência à autoanulação. É o homem "do diálogo" que até nomeou a porta-voz do PAN para provedora do animal quando era presidente da Câmara, mas é ao mesmo tempo o primeiro-ministro que foi derrubado por recusar dialogar com o segundo maior partido da Assembleia e salvar o seu Orçamento. É o candidato desse Orçamento de 2022 como bandeira, quando o documento foi chumbado por todos ‒ ou quase todos ‒ aqueles com quem precisará de falar se for o mais votado. Resta-lhe a memória de Passos Coelho, que foi eleito há mais de uma década e que não dá uma entrevista desde 2017, na idêntica ironia de ter sido derrotado por ele nas urnas. A inversão de tendência nas sondagens, que se acentuará daqui para a frente, não cai do céu. Cai de Costa. O facto de estas serem as primeiras eleições com larga difusão de fact-checkings não tem sido amigo do secretário-geral do Partido Socialista. À frente dele, nos goleadores de falsidades, só mesmo Ventura. "Por mim o senhor não passa", dizia-lhe Costa, no debate. Ainda empatam.

Temos, portanto, Rio no horizonte. E, para usar a coloquialidade que agora lhe é cara, comeu-nos a todos de cebolada. Quatro anos de hibernação e sorrisos ao lado do PS. Dois "acordos ao centro" para a descentralização e para os fundos europeus, cuja única consequência foi uma fotografia em São Bento e um premeditado distanciamento do passismo. Uma candidatura montada em torno de "Portugal ao centro", quando o programa eleitoral está tão ao centro-direita quanto o PSD sempre esteve. Uma campanha de piadas, gatos nas redes sociais e brilharetes em programas de humor. Rio, o responsável. Rio, o simples. Rio, o honesto. Rio, o democrata. Rio, o divertido. Tudo balelas, claro, mas tudo muito útil para pescar votos na rejeição que Costa vai merecendo nos estudos de opinião. Debaixo do verniz de comediante, mora um iliberal em Rui Rio. No seu demorado abraço de urso aos indecisos, a pressa era proibida. O PSD validou repetidamente essa estratégia, reelegendo o seu líder e alojando-o numa sala de espera para o poder. Mas não foi só o PSD, pois não? A esquerda, que agora lhe chama "nazizinho", também tolerou e elevou Rui Rio pelo seu contraste com Passos Coelho, por ser um "verdadeiro-social-democrata", por não atacar António Costa, por não maçar nas sondagens. E agora? Agora, meus amigos, estão prestes a ter um primeiro-ministro que desprezou semanalmente o parlamento, a comunicação social e os atos eleitorais. Que tem um critério sobre o Ministério Público quando lhe convém e outro quando não convém a Rui Moreira. Que organiza conferências de imprensa onde as perguntas dos jornalistas são frequentemente apupadas, consoante a disposição. Que tem uma opinião sobre a prisão perpétua quando debate com Ventura e outra quando debate com Catarina Martins. Que tem uma visão sobre a Segurança Social perante Cotrim Figueiredo e outra diante Costa. Que olha para o SNS de uma maneira na sua revisão constitucional e doutra no programa eleitoral.

Quem diria que, em menos de uma geração, também a direita teria o seu Sócrates. E que o país, em indiferença generalizada, se riria tanto disso.

Não há nada a esperar disto.


Colunista

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