Durante semanas, Putin ameaçou utilizar armas nucleares na guerra na Ucrânia. E sublinhou que não se tratava de um bluff. Vários próceres seus vieram exigir que essas armas, pelo menos as nucleares táticas, fossem usadas na "operação militar especial". No último discurso feito na conferência anual do Clube Valdai, Putin finalmente declarou que "é inútil atacar a Ucrânia com armas nucleares", que "não vemos necessidade disso" uma vez que "não faz qualquer sentido, nem político, nem militar". Esta declaração aparentemente retira da mesa a ameaça de utilização de armas nucleares. Mas é importante refletir sobre a postura das principais potências ocidentais no período que mediou entre a primeira ameaça de Putin e esta declaração de distensão sobre a retórica nuclear..A ameaça de Putin visou relembrar que uma superpotência nuclear não pode ser considerada em plano de igualdade com um país sem armas nucleares e que, se este último não perceber isso, sujeita-se à utilização destas armas pela potência nuclear. A outra mensagem transmitida é que uma potência com armas nucleares não pode ser derrotada numa guerra convencional com um país sem tal armamento..Perante isto, qual foi a resposta das potências nucleares do Ocidente e da NATO?.Desde o início da invasão russa, todos os países da NATO disseram e reiteraram que não se envolveriam militarmente, que a Terceira Guerra Mundial deve ser evitada a todo custo e que a "estabilidade global" é primordial. Recusaram também assegurar a escolta de navios mercantes ucranianos ou assegurar uma "no-fly zone" no espaço aéreo ucraniano, pedidos pelo governo ucraniano..Só existe dissuasão nuclear quando a outra parte ou um seu aliado pode responder com armas nucleares a um bombardeamento nuclear. O drama neste caso é que nem a NATO (aliança defensiva), nem qualquer das potências nucleares do Ocidente mostrou disponibilidade para fazer essa ameaça. Em especial, o silêncio dos EUA significa objetivamente uma recusa de uma retaliação nuclear proporcional no caso de utilização de armas nucleares [táticas] russas na Ucrânia. Um dos mais prestigiados militares americanos, o [agora reformado] general Wesley Clark, propôs uma contra-ameaça com medidas de retaliação convencionais - a destruição das Forças Armadas russas ainda em território ucraniano..Os dias e semanas passaram e o silêncio dos responsáveis políticos e militares europeus e americanos quanto a respostas concretas tornou-se ensurdecedor. Depois de uma vaga resposta do presidente americano numa entrevista - "don"t, don"t, don"t" e da menção de que tal teria consequências -, este acrescentou recentemente que isso seria um "sério erro". Parece ter prevalecido a tese de ser preferível fazer uma ameaça vaga. Pelo que as propostas inteligentes do general Wesley Clark - e outros - não foram confirmadas por qualquer líder, em especial dos EUA..Esta ausência de contra-ameaças concretas podia ter levado Putin a pensar que nenhuma retaliação relevante teria lugar. E isso teria sido dramático. Felizmente o receio de destruição da imagem internacional da Rússia e subsequente tratamento pela generalidade dos países como um estado-pária (que não é o caso atualmente apesar da narrativa mil vezes repetida na Europa e nos EUA) indiciam que a insanidade no Kremlin parece ainda ter limites..Consultor financeiro e business developer www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira