O Sahel na frente de batalha da Ucrânia!

O actual debate/braço-de-ferro entre NATO e Rússia a propósito da adesão ou não da Finlândia e Suécia à Aliança Atlântica, tem tido os seus efeitos em África, com desenvolvimentos interessantes na última semana. Antes disso, a Junta Militar do Coronel Maiga, no início do mês anunciou o fim dos acordos de defesa com França e parceiros europeus. A justificação baseia-se no clássico "violações flagrantes à soberania do Mali". A aproximação desta Junta Militar à Rússia tem sido mais do que óbvia desde 2020, razão aliás para o golpe da dupla Maiga/Goita em agosto desse ano. Em razão disto também, a França anunciou há precisamente um ano o fim da Operação Barkhane, com a deslocalização deste contingente para o vizinho Níger, a mina de urânio para o nuclear francês. Esta semana, esta ruptura Mali-França conhece o inevitável com a retirada do Mali do seio do G5-Sahel, a coligação regional do Sahel Ocidental no combate ao jihadismo.

A Junta rompe com o G5-Sahel e publica, praticamente em simultâneo, um comunicado esta semana, onde indica que foi desmascarada uma nova tentativa de golpe militar, a 11 e 12 de maio, com "mão estrangeira", sem a identificar. Outro clássico na guerra pelo poder, a apresentação de dados sem factos até agora palpáveis (apresentação/detenção de suspeitos capturados, gravações áudio e vídeo, apreensão de panfletos, bandeiras e/ou um caderninho/PC ou pen drive com planos e movimentações sempre impossíveis de memorizar dada a dimensão da empreitada). Qualquer especialista em informações até poderá identificar neste modus operandi mão da "escola russa" no domínio da desinformação.

Sahel Oriental

Sendo este o actual cenário no Sahel Ocidental, que vê no Mali um motor anti-francês deveras popular junto das elites e das populações, que as aproxima aliás cada vez mais da "solução russa", esta semana viu novidade interessante acontecer no Sahel Oriental, enquanto resposta americana a esta consolidação russa a Ocidente.

O Presidente (PR) Biden tem tido como cruz fazer regressar os Estados Unidos a acordos e compromissos internacionais entretanto rasgados pela anterior Administração Trump. Nesse sentido e aproveitando também a recente eleição do PR Hassan Sheikh Mohamud e sua necessidade de afirmação, o PR americano aprovou um pedido do Pentagono para o envio de 450 militares para a Somália (Trump retirou 750), justificado na necessidade de manter a monitorização e rédea curta ao jihadista Al-Shabab.

Biden dá essencialmente dois sinais à Rússia. O primeiro até é mais para o próprio ficar bem na fotografia internacional, já que tenta assumir-se como detentor das "boas armas", face às "más" que invadiram a Ucrânia num avanço de xadrez imperialista. A segunda, no contexto do alargamento da NATO à Finlândia e Suécia, dá sinais de que poderá ser debatido um outro alargamento na Cimeira ordinária de Madrid dentro de um mês. O alargamento da área operacional e estratégica da Aliança até à linha do Equador, assumindo assim todo o Atlântico norte e colocando sob a sua asa protectora todo o Magrebe/norte de África, Sahel da costa à contracosta e África Ocidental/Golfo da Guiné.

Neste grande jogo, a NATO não pode perder a face e ter em cima da mesa duas opções de alargamento para, se uma falhar, garantir pelo menos uma vitória. A guerra actualmente nos bastidores, é a guerra das alianças, no seguimento das sanções aplicadas à Rússia.

Politólogo/Arabista www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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