O "rival" e o adversário

Quis o destino que nos últimos 18 anos tivesse estado praticamente todos os fins de semana em campos e estádios de futebol. Desde 2004 até hoje, já assisti a centenas, talvez milhares de jogos de futebol, desde os chamados "escalões de formação" até desafios entre equipas de seniores das mais variadas divisões, desde as muito amadoras, às semiprofissionais.

O nível de violência verbal entre jogadores, jogadores e árbitros, árbitros e dirigentes, treinadores, atletas e árbitros é, só por si, um indicador de como a tribo do futebol - tenham os atletas 6, 10, 16 ou 30 anos - se comporta, de forma absolutamente selvagem e impune. No futebol, logo desde cedo, tornou-se "normal" os miúdos insultarem-se e agredirem-se, os pais destratarem os árbitros e envolverem-se em confrontos com outros pais, da outra equipa. Já vi de tudo. Dirigentes a espancar adversários, jogadores em cenas de pancadaria e o mesmo nas bancadas entre pais; árbitros insultados e ameaçados, e outros, árbitros, a fazerem gestos obscenos e sem perdão para as bancadas. Já segurei em duas crianças de colo, enquanto mãe delas era atirada pelos degraus da bancada, sem dó nem piedade; já vi pais a desafiarem árbitros para a porrada no fim dos jogos, e já assisti a árbitros a fazerem o mesmo. A tendência natural dos pais para a "proteção" dos filhos, a emoção e a irracionalidade do futebol e, sobretudo, a impunidade ou a sensação dela acontecem todas as semanas, há décadas, em quase todos os campos de futebol do país. E estamos a falar de escalões de "formação", onde às vezes se ouve, das bancadas "dá cabo dele", ou "parte-lhe a perna". Nada disto chega à opinião pública.

Já vi claques - bando de miúdos desgovernados - num jogo de formação a espancarem uma senhora de idade que tinha ido ver o jogo do neto, que jogava na equipa adversária. Ou "rival", como agora se diz. Deixou de haver adversários, hoje há rivais ou inimigos. Deixou de haver respeito, antes de mais, pelo desporto em geral e pelo jogo em particular. A sociedade "dos brandos costumes" que esteve fora das notícias até ao 25 de Abril, nunca foi de brandos costumes e a violência sempre fez parte. Hoje, está pior.

Quando, nas ligas profissionais, os casos deste género chegam às notícias, abre-se a boca de espanto, as redes enchem-se de comunicados e as virgens ofendidas que comandam todo o sistema do futebol fazem de conta que não são parte do problema.

Crianças em tronco nu a verem um jogo, crianças cuspidas e insultadas porque são do clube adversário, espancamento e lutas à porta dos estádios, violência gratuita só porque, na rua, um grupo de rufias se cruza com outro cidadão que apoia o clube adversário... tudo isto faz parte do dia a dia e são atos que a indústria do futebol faz de conta que não vê. Quando se permite, nas ligas profissionais e televisionadas, que os jogadores insultem os árbitros e se insultem uns aos outros, quando se percebe pelos lábios a linguagem que é utilizada, quando os treinadores vêm dizer que isso é "futebol", quando normalizamos o que deve ser exceção, quando somos permissivos com o que não deve ter tolerância tornamo-nos, todos, cúmplices.

A sociedade somos nós. E todos somos responsáveis pelo "estado a que isto chegou". E, como o exemplo vem de cima, é de cima que temos de começar a modificar comportamentos. Os miúdos crescem a ver os seus ídolos a praguejar, a insultar, a espumar, a provocar, a troçar e a agredir o outro.

Além de tudo isto, a cultura da "vitória" a qualquer custo e a desvalorização do jogo pelo jogo, do respeito pelo adversário e pelos espectadores, e das mais elementares regras de bom senso, que não se legisla, fazem dos campos de jogos uma selva e não uma festa. De cada vez que um atleta que perde uma final, e recebe a medalha de finalista vencido, e a retira imediatamente do peito, é um sinal de profundo desrespeito pela competição e pela essência do desporto. E, até, por si mesmo, que lutou para estar naquela final. E perdeu. Só pode ganhar um.

Não, o desporto - e o futebol em particular - não é uma festa. É um reflexo medonho da sociedade tolerante que não temos sido capazes de construir.


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