O plano "depende" e "depois se vê"

O governo não faz a mínima ideia do que vai fazer com o plano. É tudo tão colorido que já se perderam no barulho das luzes. E isto só hoje começa. Lembram-se de quinta-feira nos terem apresentado um gráfico com duas linhas que se cruzam e determinam quando tudo tem de parar ou mesmo regredir, concelho a concelho? Esqueçam! Fontes do governo já andam a explicar aos jornalistas que é mais "vai-se vendo" e "depende". Estamos tão cansados da pandemia que um plano manifestamente mau, por ser falacioso, até nos pareceu bom.

Um plano que foi apresentado como sendo bastante simples, com regras claras e objetivos bem definidos, e que até tem datas, mas não tem resposta oficial do governo para as perguntas mais óbvias. O país começa hoje a desconfinar de igual maneira em todo o território, mas o primeiro-ministro deixou claro que "o confinamento será tão local quanto possível". Se é assim, a pergunta seguinte é muito clara: o que vai acontecer dentro de 15 dias a todos os concelhos que estiverem bastante acima da média nacional e para lá do limite de 120 novos casos por 100 mil habitantes? Do governo, o mais que ouviremos nesta altura é "depende de muitos fatores".

Se parece aceitável que neste arranque se incluam os 144 municípios que estão no intervalo amarelo (120-240 novos casos), com a esperança de que eles, em duas semanas, fiquem abaixo do limite, é mais difícil de compreender que os 35 municípios que estão num patamar que o próprio António Costa nos disse ser "um limite a evitar" ou, pior, os sete concelhos que estão claramente acima dos 480 novos casos, números considerados muito graves, também entrem no desconfinamento. Mas como existe uma fórmula mágica, que passa por "desconfinar a nível nacional e confinar a nível local", é possível tudo e o seu contrário.

Olhemos para a próxima avaliação, se o concelho de Resende, que agora tem 947 novos casos por 100 mil habitantes, tiver o número de novos casos a descer, mas ainda for superior a 480 (o dobro do número considerado muito grave), o que é que acontece? Não sabemos. Pela lógica nacional (números abaixo de 120 e de 1), em Resende e no resto do país reabrem as escolas para os 2.º e 3.º ciclos e ATL para as mesmas idades; equipamentos sociais na área da deficiência; lojas até 200 m2 com porta para a rua; feiras e mercados não alimentares, esplanadas, etc. Mas, pela lógica local, Resende fica a marcar passo até conseguir baixar de 120.

Um plano que era tão fácil de aplicar, tão fácil de ser percebido por todos os portugueses, só não tem quem saiba dizer como funciona. O otimismo de Marcelo, que queria um desconfinamento mais tardio, só pode resultar do facto de considerar que o plano levado à letra não vai reabrir metade do que propõe em metade do país.

Já só se pode pedir que não deitem outra vez o bebé fora com a água do banho. Não voltem a fechar as escolas, pois seria imperdoável que se atrevessem a aprisionar de novo as crianças e jovens para garantir que os adultos são responsáveis e evitam os contactos que fazem subir os contágios. Se as coisas correrem mal, assumam a responsabilidade pelo falhanço e, sobretudo, assumam a responsabilidade de garantir que um novo confinamento dá bons resultados mesmo mantendo as escolas abertas para todas as crianças e jovens.

Jornalista

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