O grito do Ipiranga

Tem sido muito destacado, por pouco habitual, também ser celebrado em Portugal o Bicentenário da Independência do Brasil. A data simbólica de 7 de setembro em que D. Pedro rompe as relações de subordinação com Portugal e grita nas margens do Ipiranga "Independência ou Morte!", permitiu, ao longo destes dois séculos, a visão romantizada do país colonizador que liberta a sua colónia. Decerto um dos melhores resultados destas comemorações tem sido a profusão de encontros científicos e publicações (livros, artigos, nomeadamente dirigidos ao grande público) que mostram a complexidade desse processo.

Ao longo destes 200 anos, vários movimentos migratórios têm levado e trazido comunidades que serviram para aproximar os dois países que (não será exagerado dizer) ainda se conhecem mal. De um lado e doutro, sobrevivem muitos estereótipos com a sua melhor expressão no anedotário vulgarizado. A língua portuguesa continua a ser considerada o traço de união mais permanente, embora com as diferenças que umas vezes são empoladas e outras ignoradas.

A chegada das telenovelas brasileiras a Portugal trouxe consigo um contacto com vocabulário e sotaques que, na altura, foram rapidamente assimilados. Muito desse vocabulário era, afinal, o regresso de palavras do português antigo que outras influências ou o caminho das palavras fizeram desaparecer ou substituir por distintos termos. Esquecemos que as línguas são corpos vivos que se transformam, embora seja necessário ter uma perspetiva longa para dar conta dessas mudanças. Se o português evoluiu do latim, começando por ser uma língua oral e absorvendo influências como o árabe, o português do Brasil cruzou-se com outras línguas como o tupinambá, o iorubá, mas também o espanhol, o francês e outros idiomas ao sabor da história.

Reconheço que o grande objetivo do Acordo Ortográfico de 1990 não foi alcançado: criar uma base ortográfica comum a todos os países de língua oficial portuguesa que permitisse, por exemplo, maior circulação do livro e de todos os produtos escritos, mas também contribuísse para a criação de um espaço de conhecimento comum, facilitando a mobilidade de estudantes e professores.

Lindley Cintra (1925-1991), um dos maiores linguistas portugueses, que colaborou ativamente na elaboração das bases desse acordo, publicou no semanário Expresso, em 28 de junho de 1986, um artigo em que expõe as razões para que, segundo ele, "deve considerar-se indispensável e urgente que se chegue a um verdadeiro e eficaz acordo sobre tal matéria ainda que, para isso, haja que sacrificar preconceitos e hábitos há muito adquiridos [...]". O resto da história já a conhecemos.

Os preconceitos e hábitos há muito adquiridos têm levado a uma clivagem cada vez maior entre a variante do Brasil e de Portugal, de que poderíamos dar muitos exemplos, desde logo ao nível da circulação de edições de um país e de outro por razões da diferença de variantes. Talvez o exemplo mais chocante seja a exigência por parte de universidades portuguesas (não sei se acontece no Brasil) de que os estudantes dos países de língua oficial portuguesa utilizem nos seus trabalhos a variante de Portugal. É frequente também ouvir comentários dirigidos a brasileiros como "Fala tão bem, nem quase tem sotaque".

Uma das maiores riquezas da nossa língua é a sua diversidade que resulta de uma história espalhada por várias geografias, cruzando-se, por isso, com diferentes culturas e outras línguas. No ano em que celebramos o Bicentenário da Independência do Brasil, falta saltar muitos muros e não esquecer que o português é uma grande língua - a tal de 260 milhões de falantes - porque 210 milhões estão na América Latina. E muitos de nós (incluindo os nossos filhos) imitamos o sotaque brasileiro para conseguir um bom desempenho de assistentes de voz como a Siri ou a Alexa.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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