O Grande Nada

Chamam-lhe o Grande Nada, ou Vazio Infinito. Com a sua área de 9 065 000 km², ocupa uma extensão de terra quase tão grande como a da Europa ou a da América, maior do que a do Brasil ou a da Austrália. Se alguém fizer o trajecto de Boston a São Diego, ou de Paris aos Urais, bem pelo interior da Rússia, não atingirá distância equivalente à do Deserto do Saara, uma imensidão recortada a norte pelas cordilheiras do Atlas, que os antigos julgavam suster o próprio firmamento, e prolongada a sul pelo Sahel, até se confundir com a velha Terra dos Negros, Bilad-as-Sudan, em que as savanas vão cedendo o passo ao verdor dos trópicos e suas florestas. Mas, em rigor, não se sabe ao certo onde começa e acaba o Saara, que um viajante descreveu, lucidamente, como o lugar do mundo onde a insignificância humana é mais visível e palpável, quase caricata.

Depois, há a terra e há os ventos. A primeira, na aparência, divide-se em duas zonas apenas: a das dunas arenosas, os ergs, e a dos solos pedregosos, os regs, ou hamadas. Os ventos, esses, são muitos e muito variados. O mais poderoso e perigoso de todos é o harmatã, a que os tuaregues chamam Sopro Quente do Deserto. Diz-se que o seu nome deriva da palavra árabe usada para designar "coisa do diabo", o que, tratando-se do harmatã, é um termo adequado. "Quando o vento sopra, o deserto treme", afirmam os tuaregues, e um cronista da Legião Francesa descreveu-o não como uma tempestade de areia, antes como uma neblina incessante, uma poeira finíssima que tudo penetra, os olhos, os pulmões, os poros da pele, o nariz, a garganta.

O harmatã transporta consigo uma figura sinistra, Raoul, O Tocador da Morte, e as suas areias percorrem distâncias inauditas, cobrindo as ruas de Marselha e as piscinas dos ricos nas colinas da Riviera, chegando a Inglaterra, ao norte da Alemanha. Em certas ocasiões, como sucedeu no Verão passado, o Saara vem até nós, impregnando os céus ibéricos de nuvens espessas e densas, por vezes da cor do sangue. Garantem os especialistas que, todos os anos, quase um bilião de toneladas de areia saariana atravessa o Atlântico, levando até à América fungos africanos que têm um efeito devastador sobre os corais das Caraíbas ou, como aconteceu em 2001, inundando o Golfo do México com uma "maré vermelha" que fez aumentar a concentração de ferro nas águas em 300%, o que produziu uma reacção química que matou milhões de peixes e provocou problemas respiratórios, e até falhas de memória, em milhares de seres humanos. Em cerca de 30% do território continental dos Estados Unidos é possível detectar vestígios das areias do deserto, naquilo que é já considerado um grave problema de Saúde Pública para as populações de muitos lugares, em especial da Flórida (estima-se que entre um terço a metade da poeira que se ergue nos céus de Miami tenha origem africana). Curiosamente, as poeiras do Saara estão carregadas de partículas de pesticidas, como o DDT ou o clordano, há muito banidos na América, mas ainda usados com abundância nos campos de África, no que quase parece ser uma révanche terceiro-mundista, ou, pelo menos, um inequívoco aviso de que tudo é global neste mundo e de que, por isso, não devemos iludir-nos pela falsa segurança das fronteiras políticas ou dos muros que artificialmente erguemos.

No deserto, a grandeza está no ínfimo. Até as minhocas nas entranhas da terra são diferentes consoante os lugares e regiões: as do Saara Ocidental, de Marrocos, de partes da Argélia, são idênticas às de Portugal e de Espanha, e das ilhas Canárias; as do Leste da Argélia, da Líbia, de parte do Egipto, iguais às da Sardenha ou da Sicília; a Leste do Nilo, partilham afinidades com as minhocas do Levante e até da Roménia; por último, as do Sul do deserto percorrem vias que atravessam o planalto da Etiópia, outras que chegam ao Quénia, outras que intersectam a região dos Grandes Lagos para desembocar na Tunísia, outras ainda que vão da Libéria ao Cairo. São insondáveis os caminhos dos vermes do deserto.

Ante o vazio infindo, os homens pouco mais são do que minhocas e, desde tempos imemoriais, existem histórias de caravanas ou exércitos inteiros que se perderam na imensidão das areias - e foram devorados por elas. Muitos aí procuraram refúgio - como os nómadas, os tuaregues, os mouros e os chaamba, no século VII, em fuga dos invasores árabes -, mas só uns poucos conseguiram regressar vivos. Muitos dos oásis que outrora alimentaram cidades poderosas e lendárias, pontos fulcrais nas rotas do comércio medieval - Chinguetti, Ouadane, Tichit, Tidjikdja, Atar -, são hoje lugares inóspitos e fantasmagóricos. Outros, que ainda existem, como aquele a que chamam al-Dakhilah, Dakhla, Dakhle ou El-Dakhla, já eram famosos nos tempos de Heródoto. De lá vieram cavaleiros. E houve reinos grandiosos, portentosos, impérios que duraram séculos, mil anos, e que num ápice se desfizeram em cinza e poeira - Velho Gana, Tekrut, Mali, Songhai ou Kanem-Bornu, formado no ano 900 em redor do Lago Chade, o maior entreposto comercial da Idade Média, conhecido de todos os mercadores da Europa e do Levante, e arrasado pelos colonizadores franceses. Em 1803, cansados dos ataques dos piratas berberes, que perturbavam o comércio marítimo com a Europa, os Estados Unidos enviaram uma expedição punitiva que atravessou o deserto desde o Egipto até Trípoli; pouco depois, França tomaria a Argélia e, no final do século, a Tunísia; em 1911, os italianos expulsaram os turcos da Líbia, para aí instituírem um regime brutal e tirânico que, entre extermínio e exílio, fez decrescer a população do país para menos de metade; no ano seguinte, pelo Tratado de Fez, Espanha e França partilharam o território de Marrocos.

O Saara é uma lição de humildade, mostrando-nos a pequenez humana, mas também, ou sobretudo, uma lição sobre a efemeridade da vida, a nossa e a dos outros seres. A Sul de Tazolé, perto de Agadez, existe uma das maiores importantes jazidas de dinossáurios do mundo, prova de que o actual deserto foi, há 100 milhões de anos, uma região densamente florestada, percorrida por animais pré-históricos, crocodilos, gigantescas tartarugas, peixes descomunais que infestavam lagos a perder de vista. Na Argélia, no Níger ou no Chade, ainda hoje existem restos de florestas de árvores petrificadas, lembrança fóssil de que o Saara já foi muita coisa, em alternância lenta ou rápida de períodos de chuva e de seca, num ciclo de humidificação e desertificação que se repetiu há 40, 30 e 20 mil anos. Ali floresceram árvores frondosas, cedros do Atlas, carvalhos, sicómoros, que com o tempo quente do Holoceno Médio permitiram a fixação humana e o nascimento de civilizações. Mas, há oito ou sete mil anos, a água e as florestas começaram a rarear, o Saara voltou a ser um deserto e, desde há cerca de três mil anos, mantém a forma actual, tentacular e expansiva. Os romanos ainda conseguiram domesticar-lhe as bordas, através de aquedutos e intricados sistemas de irrigação, sem que o deserto deixasse de crescer e expandir-se, hoje a um ritmo visível no espaço de poucas décadas. Há explicações que convocam a mutação do eixo da Terra, que era de 24,14 graus há nove mil anos e é hoje de 23,45 graus, fala-se em "Ciclos de Milankovich", nome do cientista que os descobriu, relaciona-se o movimento de Júpiter com a verdura das acácias, conclui-se, enfim, que ali, como em toda a parte, tudo está ligado pela mesma e única conexão existencial. A presença humana, como sempre, causa estragos: na Tunísia, plantaram-se grandes olivais, destruindo a vegetação autóctone rasteira, o que está provocando seríssimo problema de erosão dos solos; no final dos Anos 1980, inícios dos Anos 1990, as revoltas dos tuaregues no Níger, que se levantaram contra as constantes guerras que afectavam as rotas das caravanas e a alimentação dos seus camelos, levaram a que muitos deles abandonassem o nomadismo, fixando-se nos escassos terrenos com água, os quais, à conta disso, secaram em poucos anos, numa perda irreversível. Sempre que a vegetação desaparece ou começa a rarear, a superfície do solo fica mais exposta à acção do sol e reflecte com mais intensidade os seus raios, o que altera a termodinâmica da atmosfera e faz com que haja menos chuvas e mais nuvens e tempestades de areia. O deserto gera mais deserto.

"Teimamos em não perceber que não existe um "clima português" ou outro "norueguês", que no mundo existem zonas climáticas, sem dúvida, mas que todas fazem parte de um e mesmo clima, o do planeta inteiro."

Ainda assim, o Saara é fértil em vida e nele nada há de tão vivo como as dunas que aí se formam e movimentam com assombrosa velocidade. Por muito estranho que pareça, só 15% do Saara é composto de areia e quatro quintos dele correspondem a montanhas, planuras de pedra e gravilha. A nós, a paisagem parece uniforme, repetitiva, mas o olhar mais experiente dos tuaregues ou dos tubu sabe distinguir os vários locais, dando-lhes nomes diferentes: ghrud, para as dunas e colinas arenosas; serir, planícies de gravilha, por vezes cortante, impossível de percorrer; hatiä, locais potencialmente férteis, com vegetação rasteira, capaz de alimentar um camelo; wishek, uma área outrora fértil, mas transformada em deserto; subkhar, planícies de sal, por vezes pantanosas no Inverno, mas geralmente duras como pedra; wadi, os vales por onde a chuva por vezes escorre; jebel, uma montanha ou cordilheira.

Tudo isso, e o mais que aqui é dito, consta de um livro arrebatador, Sahara - The life of the great desert, de Sheila Hirtle e de Marq de Villiers, um extraordinário escritor de viagens que, não sei porquê, perdeu as graças do público e caiu em lamentável esquecimento. É lá que nos contam que as dunas têm vida própria e assumem colorações diferentes consoante os lugares: a norte de Bamako, capital do Mali, são douradas, com veios vermelhos ou castanhos de particular intensidade; no deserto marroquino, a Sul de Drâa, revestem-se da clássica cor de caramelo, enquanto no Sudoeste do Mali assumem delicados tons róseos; no erg de Ténéré, no Leste do Níger, encontram-se as Areias do Nada, consideradas as dunas mais belas de todas, fundas e perigosas, faiscantes como o oiro. Nos grandes ergs da Argélia há dunas do tamanho da Bélgica e, não longe, a Grande Duna de Amguid é praticamente uma montanha.

A areia do deserto é uma relíquia geológica, pois constitui um vestígio do mar raso que cobria o Saara ao longo do Terciário, durante um período inimaginável, entre há 65 000 000 e 1 600 000 anos atrás. Cada grão é microscópico, tem entre 0,2 e 0,4 milímetros, em média, mas a sua acumulação dá lugar a dunas, planícies e vales do tamanho de muitos países. O seu movimento obedece aos ventos - e, por isso, às vezes é caprichoso, imprevisível - e processa-se de duas formas: na primeira, mais comum, responsável por três quartos da areia acumulada nas dunas, os minúsculos grãos de areia não voam ou andam, mas saltam como gafanhotos, numa dança prodigiosa que começa com os grãos a rolar e depois, animados pelo vento, a rodar aos saltitos, percorrendo distâncias de centenas de quilómetros. Os grãos de maiores dimensões movem-se de um outro modo, conhecido como "impacto rastejante", através do qual são movidos pela chuvada contínua dos grãos mais pequenos a saltitar. Há dunas que nascem e desaparecem no espaço de poucas semanas, que mudam de direcção, que avançam ou recuam repentinamente, como um exército em manobras. Se colocarmos o ouvido no chão, quando as dunas se começam a formar, não notaremos nada, pois o sussurro da areia é imperceptível à audição humana; mas, quando a duna adquire maior dimensão e forma, o ruído torna-se avassalador, como se no seu bojo existissem monstros em fúria, deuses sequestrados no ventre do mundo. No deserto acredita-se nos demónios da areia, os ebliss, pequenos tornados capazes de levarem árvores ou animais pelos ares.

Não admira, pois, que abundem as histórias de homens e caravanas que se perderam na imensidão das areias, ou que foram subitamente surpreendidos por ventos traiçoeiros, histórias de reconfigurações rápidas da paisagem, que aniquilam os pontos de referência nos mapas mentais dos viajantes. Noutros casos, há gente abandonada pelo caminho, ou maldosamente enganada no Vazio Infinito, quando não chacinada com um golpe na garganta ou uma punhalada nas costas. E, nos oásis mais remotos, havia por vezes homens armados, quase sempre em bandos, que se arvoravam em guardiões da água para cobrarem portagens escandalosas aos forasteiros que aí chegavam mortos de sede. O Lago Chade, o maior de todo o Saara, já famoso no tempo de Ptolomeu, perdeu metade da sua água nos últimos 200 anos, mostram-no os mapas antigos, e o ritmo da extinção acelerou de forma impressionante em tempos recentes: a cada ano, as suas margens recuam 180 metros.

O deserto é ambíguo como um ponto e vírgula. Por vezes, há chuvadas intensas, incessantes, que causam inundações devastadoras, como aquela que, em 1922, destruiu a capital dos tuaregues, Tamanrasset, na Argélia, ou a que arrasou o oásis de Teminhint, na Líbia. Por isso, os habitantes do Saara, hoje estimados em dois milhões de almas, designam as águas das chuvas com o mesmo nome da morte, meyi, e a dos poços e dos oásis como hai, o apelido da vida, ou da dádiva da vida. No Egipto, a água, já de si escassa, está a desaparecer e dá pretexto a conflitos com o vizinho Sudão, enquanto a população do país aumenta a um ritmo impressionante: um milhão de almas a cada nove meses. Desde há milénios que as caravanas não atravessam o deserto em linha recta, mas em ziguezagues contínuos, de um oásis até outro, em jornadas sequiosas, extenuantes, que são quase metáfora do destino que o futuro nos guarda.

" O único meteorologista de Tombuctu ainda segue o método tradicional de subir ao telhado da estação e apontar o tempo que vê nos céus, mas as suas anotações são avidamente seguidas e estudadas na América, pois desde há muito se sabe que, se as chuvas do Sahel chegarem mais cedo ou forem mais copiosas do que o costume, mais numerosos e intensos serão os furacões no Atlântico."

Teimamos em não perceber que não existe um "clima português" ou outro "norueguês", que no mundo existem zonas climáticas, sem dúvida, mas que todas fazem parte de um e mesmo clima, o do planeta inteiro. O único meteorologista de Tombuctu ainda segue o método tradicional de subir ao telhado da estação e apontar o tempo que vê nos céus, mas as suas anotações são avidamente seguidas e estudadas na América, pois desde há muito se sabe que, se as chuvas do Sahel chegarem mais cedo ou forem mais copiosas do que o costume, mais numerosos e intensos serão os furacões no Atlântico. A seca será uma tragédia para os povos do deserto, mas é uma bênção para as seguradoras da Flórida. A Célula de Haley, um modelo explicativo avançado no século XVIII por um advogado e meteorologista amador inglês com esse nome, lançou as bases explicativas da circulação dos alíseos e da imbricação profunda entre a radiação solar e o correr dos ventos, as latitudes do planeta, o calor e as chuvas, mostrando que, no que respeita ao clima, está mesmo tudo ligado. Como diz Marq de Villiers, numa frase lapidar, o Saara está mais próximo do que julgamos.

Não temos, infelizmente, as aptidões dos camelos ou as das dorcas, gazelas que, se tiverem folhagem para ingerir, são capazes de viver uma vida inteira sem beber água. Nem temos a tenacidade biológica dos lagartos-monitores, que se mantêm os mesmos há mais de 130 milhões de anos, e, menos ainda, a dos escorpiões do deserto, intactos há 400 milhões de anos. No deserto, um ser humano sem água sobrevive um dia, no máximo dois. O seu metabolismo fá-lo perder dez litros de água por dia, ou até mesmo o dobro se tiver de caminhar. No Saara, a sede conta bem mais do que a fome e corresponde àquilo que os berberes designam por adab, uma procura que tem de ser satisfeita de imediato, por absoluto imperativo vital.

Em tempos idos, mas ainda recentes, havia uma árvore lendária na planura agreste. Dela diziam os tuaregues, ao longo de gerações, que era o primeiro sinal de vida com que se deparavam as caravanas que iam das minas de sal de Bilma até Agadez ou às Montanhas Aïr. Numa área de 240 quilómetros em redor, nada mais havia, nada se avistava, excepto a Arbre de Ténéré, raquítica, mas robusta, imponente e sobrevivente à sua maneira, orgulhosamente só. Durante décadas, séculos talvez, ninguém se atreveu a tocar-lhe ou a cortar-lhes os ramos, mesmo os que por ela passaram transidos de frio, desesperados por uma fogueira. Há um par de anos, a Árvore de Ténéré foi abalroada por um camionista bêbado, que a ceifou. O local é hoje ponto de paragem para outros camionistas e, em redor das raízes mortas, acumulam-se agora garrafas vazias, restos de lixo e plástico, pedaços de metal enferrujado, delido pelo Grande Nada. A isso uns chamam progresso, outros devastação.

Para o António Duarte Silva e para o Miguel Lobo Antunes, porque somos "os três amigos", três amigos num deserto.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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