O equilíbrio da coluna que mantém a qualidade de vida

Ninguém gosta de andar inclinado: é um posicionamento que não é bem aceite socialmente e que, para além da estética, pode debilitar a qualidade de vida. As deformidades da coluna vertebral causam dor, cansaço e incapacidade, sendo estas razões mais do que suficientes para procurar um diagnóstico precoce e a orientação terapêutica adequada. Deixo o alerta neste Dia Mundial da Coluna.

As deformidades da coluna vertebral na idade adulta podem resultar de um desvio do alinhamento da coluna que vem desde a adolescência ou então são deformidades anómalas, que se estabelecem de novo com o processo de "envelhecimento" - ou, melhor, com o andar dos anos, tendo em conta que a sobrevida no mundo ocidental tem vindo felizmente a aumentar.

Falamos de deformidades anómalas uma vez que a coluna vertebral vive num equilíbrio estático permanente com a cabeça, numa linha vertical sobre o meio da bacia e assim os músculos equilibram-se, gastando uma menor energia ao corpo humano. No plano de frente, a coluna normal não tem curvaturas e, de lado, a coluna tem três curvaturas fisiológicas que são a lordose cervical, a cifose dorsal e a lordose lombar.

Sempre que existem desequilíbrios deste alinhamento harmonioso é fácil de perceber que já não existe o equilíbrio muscular compensatório de cada lado da coluna e, obviamente, acabam por haver músculos (ou de trás ou de um dos lados) que têm de fazer muito mais força para contrariar o poder da gravidade - o que, por si só, irá aumentar de uma forma rápida a dimensão da curvatura.

As deformidades anómalas de que falamos são essencialmente de dois tipos - as cifoses e as escolioses -que são geralmente, após os 65 anos, de etiologia degenerativa, ou seja, que desgasta as características das articulações originais da coluna de uma forma progressiva - ou, então, pós-traumática, como no caso das fraturas osteoporóticas, que resultam do colapso do osso enfraquecido devido a osteoporose. Quando falamos de deformidades que se estabeleceram na adolescência, estas são, geralmente, na coluna dorsal e mais frequentes no sexo feminino. Quando falamos de deformidade que se estabeleceram de novo - ou mais tarde na vida adulta - então são mais frequentes na coluna lombar e a incidência é igual em ambos os sexos, masculino e feminino.

As deformidades degenerativas da coluna vertebral são a consequência do desgaste assimétrico dos discos intervertebrais e das facetas articulares, que são as pequenas articulações na parte de trás da coluna vertebral. Este processo de desgaste da coluna vertebral vai causar a inclinação da coluna para a frente, originando as cifoses, ou para o lado, dando origem às escolioses.

Ninguém gosta de andar inclinado: é um posicionamento que não é bem aceite socialmente e que, para além da estética, pode debilitar a qualidade de vida. É fácil de perceber que, para tentar manter a postura correta, com a coluna direita e bem alinhada, a musculatura do lado contrário à da inclinação faz um esforço enorme e um gasto acrescido de energia para tentar reposicionar a coluna no alinhamento ideal e fisiológico. Por esta razão, estes doentes permanecem, cada vez mais, sentados, porque é a posição mais cómoda e, assim, vão progressivamente perdendo massa muscular dos membros inferiores e aumentando de peso - dois fatores que determinam negativamente a sua qualidade de vida e o seu bem-estar, comprometendo a vida social, ficando cada vez mais limitados ao seu espaço de casa.

Estas deformidades dão origem a quadros dolorosos mais ou menos incapacitantes e com um cansaço fácil fora do habitual, que vai condicionar cada vez mais a autonomia e a deambulação das pessoas que sofrem destas patologias. Esta incapacidade e a má qualidade de vida pode quantificar-se por escalas, entre as quais a HRQoL (Health Related Quality of Life) - e, hoje, sabemos que as lombalgias e as deformidades da coluna após os 65 anos são equiparáveis a incapacidade HRQoL causada pela doença cardíaca (insuficiência cardíaca).

No que se refere ao tratamento, ressalta, em primeiro lugar, a importância de uma vida fisicamente ativa em qualquer etapa, antes e depois dos 65 anos, mantendo assim a massa muscular necessária para combater os pequenos desequilíbrios posturais.

O andar a pé, regular e diariamente, é importante para a preservação da massa óssea, mas faz pouca massa muscular que não seja dos membros inferiores. Por esta razão, é essencial complementar o andar a pé com uma ginástica adequada a essa etapa da vida e que mantenha o corpo em movimento (cinesia articular) e a força muscular dos membros superiores e da coluna vertebral. Para este exercício complementar existem hoje vários programas, mas é um tipo de atividade que não deve ser praticada em casa pelo computador, exigindo sempre a orientação de um técnico e a avaliação inicial por um médico.

Em conclusão, nas deformidades da coluna vertebral do adulto, frequentes após os 65 anos de idade, devemos otimizar a nossa qualidade de vida, mantendo uma vida ativa e adequando o exercício físico ao grupo etário em que nos encontramos. Devemos também ter uma atitude alerta para sinais como a dor lombar e as assimetrias que surgem de novo no corpo, procurando um diagnóstico atempado e a devida orientação por parte de um especialista em ortopedia, diferenciado no tratamento da coluna vertebral. Estas situações devem ser combatidas desde o início com um diagnóstico precoce e a orientação terapêutica adequada, evitando que se estabeleçam as deformidades rígidas apenas reversíveis por cirurgia.

Coordenador da Unidade de Ortopedia e Traumatologia do Hospital CUF Descobertas

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