O Diário de Notícias, por duas vezes na vanguarda da cultura portuguesa

A ideia para esta tese surgiu-me quando observei - com deleite - tanto a imensa qualidade da arquitetura modernista portuguesa (infelizmente pouco conhecida até então na Roménia) como a sua proximidade - à semelhança da arquitetura romena - com a arquitetura italiana da época, em primeiro lugar com o razionalismo italiano.

Mas a beleza da investigação também está no facto de ela nos levar a descobertas em cascata. Rapidamente, a partir da beleza formal dos edifícios - como a sede do Diário de Notícias erigida por Porfírio Pardal Monteiro, na altura o endereço mais prestigiado de Lisboa, e ainda hoje um ícone do modernismo português na arquitetura - levou-me a questionar-me sobre as origens que levaram à evolução da arquitetura portuguesa. Foi assim que descobri a personalidade deste grande arquiteto (e quando digo grande penso numa escala de valores de dimensão europeia) bem como a do guru do modernismo português, o escritor e jornalista António Ferro, grande repórter do referido jornal. Tal como Pardal Monteiro, António Ferro visitou várias vezes Itália (foi também aí nomeado embaixador no final da sua vida, período que tem como testemunho um volume de poesia muito sensível), sendo grandes admiradores da arquitetura deste país. Amigo de Mircea Eliade (e tendo visitado a Roménia em 1929, durante o III Congresso de Crítica Dramática e Musical), Ferro é protagonista de um paradoxo: um dos principais representantes da vanguarda, portanto rebelde, torna-se o porta-voz de um regime conservador...

Como verdadeiro estadista, Ferro aproveitou este paradoxo para se tornar um protetor dos artistas modernistas, sejam eles pintores, escultores, homens do teatro, músicos ou arquitetos (e tive, graças ao acesso aos arquivos da Fundação António Quadros concedido por Mafalda Ferro, sua ilustre presidente, a oportunidade de documentar as suas ligações com Cottinelli Telmo e Jorge Segurado).

Além disso, se no início da minha pesquisa, quando me pediram para resumir o tema da minha tese, respondi que se tratava da "arquitetura portuguesa na época do Estado Novo", à medida que avançava a resposta foi-se transformando gradualmente até se tornar a arquitetura portuguesa no tempo de António Ferro, com toda a relatividade que esta frase pode incluir, mas também com todo o reconhecimento do peso que este jornalista do DN exerceu no futuro da cultura portuguesa no século XX.

Arquiteto romeno

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