Nuremberga em Brasília

Da maior cidade da Baviera, Munique, à segunda maior, Nuremberga, é uma horinha d e comboio mas dos Acordos de Munique de 1938, o aval involuntário do primeiro ministro britânico Neville Chamberlain a Adolf Hitler, aos Julgamentos de Nuremberga de 1946, a condenação dos criminosos vivos do Terceiro Reich, distam, além de seis anos, os cerca de 80 milhões de mortos causados pela Segunda Guerra Mundial.

Serve esta introdução para alertar que a Nuremberga brasileira vai começar agora em forma de comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado Federal para investigar a responsabilidade do governo de Jair Bolsonaro, por alguma razão chamado vezes sem conta de "genocida", nas 360 mil mortes por covid-19 no país.

Mas comparar o desastre no combate à pandemia no Brasil com os crimes da Alemanha nazi não é "forçar a barra", perguntará o leitor?

Usar a imagem dos crimes mais repulsivos do século XX com uma pandemia do século XXI não é confundir dolo com culpa?

Não é ainda cair no facilitismo da Lei de Godwin, segundo a qual "à medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou os nazis tende a 100%"?

Talvez.

No entanto, a imagem vem sendo defendida pelo sociólogo Celso Rocha de Barros, para quem "a CPI tem de ser o início do julgamento de Nuremberga que o bolsonarismo merece, não há volta ao normal sem isso", em artigo de opinião na edição de segunda-feira do jornal Folha de S. Paulo; pela jornalista Tereza Cruvinel, que previu há três semanas no jornal Brasil247 "um Tribunal de Nuremberga, no futuro, para Jair Bolsonaro"; por editorial da revista Cult; pelo teólogo Leonardo Boff; entre outros.

Bolsonaro, que já vai no quarto ministro da saúde em 11 meses, afinal de contas agiu com dolo ou com culpa ao investir contra o distanciamento - "ficar em casa aumenta a proliferação do vírus" - as máscaras - "causam irritabilidade, dor de cabeça, desânimo, vertigem e fadiga" - e as vacinas - "quem as tomar pode virar jacaré, na mulher crescer barba, o homem falar fino"?

A recusa em comprar 70 milhões de doses da Pfizer ainda em 2020, quando dizia que "vacina obrigatória só aqui no Faísca", perante um cãozinho cheio de vergonha alheia do ser humano a seu lado, e o desprezo pela chinesa Coronavac, responsável hoje pela imunização de 80% dos brasileiros já vacinados, só por ter sido comprada por um rival, foram fruto da sua espetacular incompetência ou obedeceram a cálculo político?

Comparável ao não aos Julgamentos de Nuremberga, a necessidade da CPI de Brasília é mensurável pela reação de pavor que tem causado em Bolsonaro.

Porque, antes dela, o Brasil vinha combatendo as brutalidades de Bolsonaro à base de "notas de repúdio" - consulte o Google e verá que só na última semana houve "nota de repúdio da oposição a Bolsonaro", "nota de repúdio dos governadores nordestinos a Bolsonaro", "nota de repúdio dos jornalistas a Bolsonaro", "nota de repúdio da associação dos juízes a Bolsonaro", como se um cidadão que foi repudiado até pelo exército, que o excluiu, e pelo Congresso, onde foi ignorado por 30 anos, se importasse com "notas de repúdio".

As "notas de repúdio" de hoje são os Acordos de Munique de 1938. E nós sabemos onde estes nos levaram.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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