Nós e o almirante

No início de 2021, ainda nos primórdios da covid-19, dediquei esta coluna ao possível regresso do presidencialismo, num artigo publicado com o título O regresso dos presidencialistas. O momento de metamorfose que o sistema político atravessa, a emergência de novos populismos, sempre tão ávidos de revisões constitucionais e concentrações de poder, a permeabilidade das democracias a ameaça externas, como guerras e pandemias, as alterações nos equilíbrios de poder na arena internacional, a emergência de potências revisionistas, a incerteza económica, que a inflação deste ano veio confirmar e reforçar. Tudo isso, de uma forma ou de outra, fazia adivinhar que o cinquentenário da Terceira República seria marcado, mais ou menos discretamente, pela tentação de uma chefia de Estado mais executiva, mais preponderante e de maior autoridade.

Não havia ainda maioria absoluta do PS (um raro sinal de vitalidade partidária na última década), nem invasão da Federação Russa à Ucrânia (uma demonstração plena da imprevisibilidade dos tais novos equilíbrios de poder), nem almirante Henrique Gouveia e Melo ao leme da vacinação nacional.

Volvido cerca de ano e meio, após este acrescentar de fatores não menos demonstrativos da incerteza que hoje afeta as sociedades livres, há já sondagens que dão Gouveia e Melo à frente por larga margem nas presidenciais de 2026 e entrevistas do próprio, admitindo que "logo se vê o que acontece". O almirante lamenta que lhe façam "sempre a mesma pergunta", ao mesmo tempo que tarda em dar a resposta que mataria a questão de vez. Gouveia e Melo nunca diz "nunca" e é por isso que lhe fazem "sempre a mesma a pergunta". Será candidato a Presidente da República?

Mais do que subdesenvolvimento democrático, a que já havíamos assistido com o caso amoroso do PSD com Rui Rio, o potencial eleitoral do almirante não é uma prova de imaturidade do regime. É uma consequência da sua enorme fragilidade.

Não duvidando do patriotismo de um homem que colocou a sua existência ao serviço do país, e estando certo de que qualquer ambição que cultive será concretizada no mais profundo respeito pela lei, que impede militares no ativo de exercerem funções políticas, creio que o fenómeno em torno do almirante tem muito mais a ver connosco,‒ portugueses em democracia,‒ do que com ele.

Seria simplista dizer que, ao fim de quase cinquenta anos de regime democrático, é o deslumbramento com "a farda" que explica esta adesão popular à figura de Gouveia e Melo. Não é isso; ou não será só isso. Gouveia e Melo não é um Sidónio que vem pôr ordem na República ou um Eanes que vem salvar a Revolução de si mesma. Aos olhos dos portugueses de agora, a eficácia com que Gouveia e Melo lidou com o processo de vacinação é simplesmente o modo como o cidadão-comum gostaria de se relacionar com o Estado: direto, prático e agilizado.

Aquilo que o português não vê no Serviço Nacional de Saúde (de Urgências fechadas e súplicas para que não fique doente no verão), nos transportes (com comboios sem condições para circularem às temperaturas de julho), nos incêndios (com uma rendição política à inevitabilidade da tragédia) e nas demais áreas em que a sua vida se cruza com o Estado, viu em Henrique Gouveia e Melo durante a pandemia. O seu sucesso enquanto referência é, um tanto ironicamente, fruto desse nosso fracasso.

Mais do que subdesenvolvimento democrático, a que já havíamos assistido com o caso amoroso do PSD com Rui Rio, o potencial eleitoral do almirante não é uma prova de imaturidade do regime. É uma consequência da sua enorme fragilidade.

Colunista

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