Nomes malditos

No dia em que comemorou 60 anos, a parisiense Laurence Huot juntou os amigos e contou a fantástica história da avó, Maria Solovyeva, nascida na Rússia.

Numa altura em que era proibido deixar o país, por causa da revolução bolchevique e da Primeira Guerra Mundial, Maria e o marido, Boris Solovyev, fugiram escondidos entre a legião militar checoslovaca por Vladivostok rumo ao Japão. Passaram por Singapura e por Berlim até chegarem, quatro anos depois, ao destino final, Paris. Durante a viagem, Maria deu à luz a primeira de duas filhas, mãe de Laurence.

Na capital francesa, Maria e Boris abriram um restaurante, que faliu pouco antes da morte dele. Maria, que tivera formação de elite na Rússia, trabalhou então como empregada da alta sociedade parisiense e, exímia dançarina, como integrante do corpo de ballet do Teatro Imperial. Até à noite em que o diretor de um circo americano em tour pela Europa lhe ofereceu um bem pago trabalho como domadora de animais.

Um acidente quase fatal com um urso-polar, em Miami, abreviou a carreira circense de Maria, que trabalharia até quase à sua morte, em 1977, aos 80 anos, nos Estados Unidos, como soldadora na indústria naval americana.

O mais extraordinário da extraordinária história da sua avó, Laurence guardou para o fim, conta o jornal Russia Beyond: Maria Solovyeva nasceu Matrena Rasputina, filha mais velha de Rasputin, o infame feiticeiro da corte de Nicolau II, onde Maria, aliás, Matrena cresceu. O apelido Rasputin foi amaldiçoado por duas gerações da família, a da própria Maria-Matrena e a da filha Tatiana, mãe de Laurence, que finalmente o reabilitou, um século depois, numa conversa de aniversário com as amigas.

O caso lembra o contado por Deirdre Bair. A aclamada biógrafa de Beckett, Simone de Beauvoir ou Anaïs Nin orgulhava-se de ter ajudado uma grande família ítalo-americana de Chicago, cujos membros nem se conheciam, a juntar-se em alegres reuniões.

Eram todos descendentes de Al Capone, outro biografado por Bair, que, escondidos por décadas sob apelidos inventados para ocultar o sobrenome maldito, perderam o contacto entre si.

As duas histórias parecem-se, por outro lado, com uma mais conhecida, a de William Patrick Stuart-Houston, cidadão norte-americano de origem irlandesa e alemã, como tantos compatriotas seus, distinguido com a medalha Coração Púrpura pelo trabalho como ajudante de farmacêutico na marinha americana durante a Segunda Guerra Mundial.

Sucede que Stuart-Houston é um apelido inventado pela sua mãe, Bridget Dowling, a irlandesa que em 1910 se casou em Dublin com um alemão de nome Alois. Alois era o irmão mais velho de Adolf Hitler, contra quem William Patrick Hitler (e não Stuart-Houston), seu sobrinho, combateu na guerra.

A história dos nomes malditos, entretanto, teve há um mês um episódio brasileiro, o mote para estas histórias: outrora sinónimo de sucesso, poder e dinheiro, o apelido de Isabel Maria Alvarez e das duas filhas começou a pesar-lhes tanto que um juiz autorizou no dia 25 de março a sua remoção dos bilhetes de identidade.

Chamavam-se Odebrecht, o nome de origem alemã da maior empresa de construção do Brasil, hoje sinónimo de corrupção no país (e não só). Aliás, a Odebrecht, também por vergonha, deixou de ostentar o apelido do seu orgulhoso fundador e passou a Novonor, em 2020.

Talvez daqui a umas gerações, como no caso dos Rasputin, o nome seja reabilitado por um descendente em paz com o passado.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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