Não vacinar crianças é como ignorar África

Problema 1: a velocidade de mutação da sars-cov-2 é a maior ameaça no presente e sucede tanto mais veloz quanto mais pessoas não lhe oferecem resistência vacinal. Nessa medida, a prioridade mundial - inúmeras vezes repetida - deveria ser a de vacinar a esmagadora maioria da população que queira participar neste esforço humanitário de combater um coronavírus novo, agressivo, mutante, pandémico, de forma a torná-lo apenas endémico. Para isso é preciso vacinar África onde há países com números inacreditáveis (New York Times - https://www.nytimes.com/interactive/2021/world/covid-vaccinations-tracker.html): Congo com 0,2% da população (caso mais extremo) mas onde a populosa Nigéria não ultrapassa os 3% - a média, aliás, do continente africano. Não por acaso, a nova mutação vem da África Austral porque a lotaria das mutações agressivas também resulta das probabilidades de contágio sem resistência.

A nossa geração não está a combater simplesmente uma doença, mas uma ameaça à civilização tal como a conhecemos. Há quem tenha a posição negacionista de deixar morrer os mais indefesos, paralisar as economias e sonhar com a normalização da "endemia covid" - após sucessivas e livres transmutações do vírus gerando pelo caminho muitos mais milhões de mortos. É uma posição que contribui para um holocausto irresponsável, porque a ciência conseguiu produzir uma vacina em três meses, o que evitou um trauma planetário à escala da peste negra ou da pneumónica de há 100 anos.

Tornou-se ainda mais clara, agora, com a nova variante ómnicron, a urgência mundial de fazer chegar vacinas a todos os países, num momento em que os problemas de produção parecem cada vez mais ultrapassados. Em 2022, segundo o quadro de indicadores da Unicef, a indústria será capaz de produzir 40 mil milhões de doses, ou seja, cinco vezes a totalidade da população mundial. Mesmo que sejam vacinas de dose dupla, significa mais de quatro vacinas por habitante no planeta - o que significa que há vacinas também para as crianças sem prejudicar os países mais frágeis.

Perante isto, enfrentemos então o Problema 2, sem dúvida o mais difícil do ponto de vista ético. Corremos o risco de "sacrificar" os nossos filhos, administrando-lhes a vacina, para garantir o bem-estar económico da nossa geração? A manchete de ontem do Expresso, dando conta do parecer negativo dado pelo "grupo de trabalho do sector da saúde" que apoia a DGS neste tema, é preocupante e gera uma consequência de perda de confiança dificilmente reversível. Passa a haver dois tipos de pais: os que violentam os seus filhos em troca deles próprios não terem covid; e os pais que os amam, para quem o bem-estar dos filhos está acima de tudo incluindo a sua saúde, vida ou emprego.

A questão deixa de ser social e passa a ser pessoal, íntima. O que pensa uma criança, "obrigada" a ser picada contra a opinião dos médicos? Os pais não gostarão dela? Ainda por cima sabendo que a vacina pode ter consequências desconhecidas no futuro?

Aberta esta caixa de Pandora, há, no entanto, este ponto: os "médicos/enfermeiros/membros do sector da saúde" que deram este parecer à DGS saberão certamente das suas especialidades, mas talvez não sabemos se de virologia, sociologia ou mesmo de economia. Não têm de saber, mas isso não significa que a sua opinião deva pesar o mesmo que o conjunto do fórum de especialistas (os do Infarmed, por exemplo) que têm a obrigação de analisar o caso em 360 graus.

Hoje já sabemos isto: sem vacina há mais contágios, mais doenças e um país destroçado - o país onde as crianças também vivem, em famílias cada vez mais carenciadas. Com altas taxas de infeção transformamos as escolas na placa giratória onde crianças (de pais expostos a trabalho permanente) contagiam crianças (de pais obrigados à reclusão permanente).

Não correr o risco mínimo da vacina, correndo-se o risco máximo de uma pandemia sem fim, é um mundo onde a saúde de todos vai ficar pior. Seja como for, estes peritos conseguiram uma coisa irreversível a curto prazo: aumentar ainda mais a dúvida da opinião pública sobre vacinar crianças. Janeiro não vai ser bonito.

Jornalista

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