Não há duas sem três (crises)?

Primeiro foi a crise das dívidas soberanas, iniciada há pouco mais de dez anos. Depois foi a da covid, que nos bateu à porta no início do ano passado. Entretanto, com o receio, fundado, da não aprovação do orçamento do Estado, pode chegar também uma crise política. Será que, como diz o povo, não há duas sem três?

Uma das raras vantagens que as crises nos oferecem é a da aprendizagem. Sabemos que as grandes dificuldades se apresentam ciclicamente, por erros próprios ou por razões exógenas, e o mínimo que podemos fazer é usar o conhecimento acumulado para melhor as enfrentar.

No caso da crise da dívida, os protagonistas que a enfrentaram foram Pedro Passos Coelho e o seu governo de 2011. Apesar das imposições da troika, baseadas numa conceptualização da solução profundamente errada, como foi já admitido pelos próprios, o governo do PSD e CDS foi perentório na sua convicção de que era necessário "ir além da troika". A direita colocou no terreno um portefólio de medidas ideologicamente marcadas pela desqualificação dos trabalhadores, pela estigmatização do Estado e dos servidores públicos, pela privatização de tudo o que eram ativos do Estado e pelo convite à emigração dos jovens qualificados. O estilo que a direita adotou ficou simbolizado por grandes cortes nos rendimentos do trabalho, pelo brutal aumento de impostos, pela defesa da redução do salário mínimo e pela elevadíssima taxa de desemprego. Uma visão miserabilista, que via Portugal condenado a ser "pobre e sério", como se a prosperidade fosse uma ambição reservada aos que vivem além-Pirinéus.

Se olharmos para a crise pandémica, cujo protagonista foi (e é) António Costa e o seu governo, percebemos um esforço continuado para que os rendimentos do trabalho não sejam prejudicados por cortes impostos pelo Estado. O impacto dos confinamentos foi mitigado através de ajudas diretas às empresas e aos trabalhadores. O desemprego subiu, mas em apenas um ano voltou aos níveis anteriores. Os salários, incluindo o mínimo, continuaram a subir, embora com a moderação que a situação aconselha. Os impostos não foram aumentados. As hipotecas beneficiaram de moratórias, o que fez com que a maioria das empresas aguentassem e as famílias não tivessem de entregar as suas casas à banca, como acontecera na crise anterior. O Estado social, especialmente o Serviço Nacional de Saúde, foi dotado de recursos extraordinários e respondeu ao nível dos melhores do mundo. Esta é uma visão de governação que acredita em Portugal e nos portugueses, que procura seguir uma rota de progresso, sem recuos, dentro dos limites orçamentais que garantem a sustentabilidade futura do país.

Não há como ver as coisas de outra forma. As opções dos partidos com assento parlamentar são a viabilização ou o chumbo do orçamento do Estado. No primeiro caso, o caminho é o dos avanços sociais e económicos, com contas certas, como o comprovam os últimos seis anos. No caso inverso, o chumbo, o caminho é o do regresso da austeridade, dos cortes cegos e da ideologia dos salários baixos.

A direita já disse ao que vinha. O seu projeto, no caso de eleições, é tentar chegar ao poder, para o que teria de juntar PSD, CDS, IL e Chega. A esquerda, por sua vez, terá de decidir se quer regressar ao passado e enfrentar o julgamento dos portugueses.

Como dizia a canção de Carlos Paião: Não há duas sem três / Mas, às duas por três / Comprei um amuleto / Contra a malvadez.

Deputado e professor catedrático

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