Nada é verdade, tudo é permitido

Era mais do que óbvio: nos seus delirantes delírios, William Burroughs, um dos papas da Beat Generation, andou fascinado pela Cientologia de Ron Hubbard e pelas suas patranhas sobre a "mente reactiva". Em 1968, chegou a frequentar cursos da seita em Londres e Edimburgo, mas há quem assevere que o seu interesse pelas doutrinas de Hubbard foi muito anterior a isso e que o autor de Naked Lunch namoriscava a Dianética desde, pelo menos, finais dos anos 50, embevecido pelas suas ideias da linguagem como meio de controlo dos outros e pelos exercícios para a libertação de todos e quaisquer condicionamentos.

A par da Cientologia, Burroughs deslumbrou-se, o que também era óbvio, pelo "Velho da Montanha". "Velho da Montanha" ou tão-só "o Velho" foi o nome que Marco Polo deu a Hassan-i Sabbah, de seu nome completo Hasan bin Ali bin Muhammad bin Ja"far bin al-Husayn bin Muhammad bin al-Sabbah al-Himyari, o xiita persa que, no século XII, fundou outra seita famosa, a Ordem dos Assassinos ou, se quisermos, dos Haxixim. Dizia Marco Polo que o Velho da Montanha fez construir num vale "o maior e o mais belo jardim do mundo", onde "só entravam aqueles que deviam tornar-se assassinos". "O Velho tinha na sua corte todos os jovens da região, dos 12 aos 20 anos, que lhe parecesse que se iam tornar homens fortes. Quando o Velho os fazia entrar no jardim em grupos de quatro, de dez, ou de 20, mandava dar-lhes a beber ópio e eles dormiam uns bons três dias e, depois, fazia-os levar para o jardim onde os despertavam." Quando os jovens acordavam, rodeados de belas donzelas, arvoredo frondoso e aves canoras, julgavam estar no Paraíso. Depois, sempre que o Velho queria mandar matar alguém, ordenava que a um certo número de jovens fosse dada uma poção soporífera e mandava retirá-los do palácio. Mal acordavam, julgavam ter sido expulsos do Éden e, então, o Velho mandava-os assassinar quem quer que fosse; cegamente, os jovens obedeciam sem pestanejar, na mira de regressarem ao Jardim das Delícias. "Desta maneira, não escapava à morte nenhum homem perante o Velho da Montanha, desde que ele o quisesse; e digo-vos que muitos reis lhe prestavam um tributo com medo de serem mortos."

Por muito fantasiosa que seja esta narrativa de Marco Polo, tem um fundo de verdade: Hassan-i Sabbah é uma personagem histórica, de rara crueldade (mandou matar um dos filhos por estar embriagado), senhor de vastos territórios, guru da Ordem dos Assassinos, devendo lembrar-se que a etimologia da palavra "assassino" deriva precisamente do haxixe consumido pelos jovens homicidas. Para Marco Polo - e o ponto é importante -, o Velho da Montanha era um charlatão que, além de drogar rapazes com ópio e com haxixe, "fazia crer àquela gente simples da montanha que era um profeta".

À semelhança dos camponeses da Pérsia, também William Burroughs e outros arautos da Beat Generation, como Allen Ginsberg, ficaram seduzidos pelo Velho da Montanha, adoptando para si o arrepiante lema da Ordem dos Assassinos: "Nada é verdade, tudo é permitido". Num dos seus últimos livros, L"innominabile attuale, de 2017, Roberto Calasso, falecido em Julho, estabeleceu o paralelo óbvio entre os actuais bombistas suicidas e os esbirros de Hassan-i Sabbah, também eles fida"iyyan (os que se sacrificam), estando dispostos a morrer em troca da mirífica promessa de um jardim com águas correntes e moças virgens. Não se pense, porém, que estes delírios se cingem ao radicalismo islâmico, pois, como bem nota Calasso, o lema "Nada é verdade, tudo é permitido" marcou fundamente a filosofia de Nietzsche, que terá conhecido o mote da Ordem dos Assassinos a partir da leitura da obra Geschichte der Assassinen, publicada em 1818 pelo orientalista alemão Joseph von Hammer-Purgstall. Desde então, e sem receio de exagero, a ausência de verdade - ou, como agora se diz, a "pós-verdade" - tem caracterizado o niilismo e o relativismo contemporâneos e a diluição das fronteiras éticas entre bem e mal, encontrando-nos hoje, insofismavelmente, num nietzschiano "para lá do bem e do mal". Neste sentido, Donald Trump ou Bolsonaro não serão do domínio do "mal", como Hitler ou Estaline o eram, estando antes, e isso sim, para além das categorias que distinguem a verdade da mentira ou a bondade da maldade.

Roberto Calasso faz outra observação surpreendente, que dá que pensar. Segundo ele, não é coincidência o facto de, na década de 1990, o último estádio de formação do terrorismo islâmico radical ter surgido a par da explosão da pornografia online. Não se trata de fazer uma crítica moralista à difusão de conteúdos pornográficos através da Internet, ou de forçar uma relação de causa-efeito entre os dois fenómenos, mas de perceber que a massificação da pornografia implicou, como escreve Calasso, que "tudo o que desde sempre foi sonhado ou desejado se tornou subitamente visível e facilmente acessível, a toda a hora, a todo o minuto". Como é evidente, esta erupção da pornografia subverteu por completo os códigos, os tabus e os interditos existentes em matéria de sexualidade, com isso ameaçando os fundamentos da autoridade religiosa, a qual, no universo islâmico, confunde-se com a autoridade civil ou política. Pense-se no Paquistão, alfobre de radicalismos, o país que mais consome pornografia infantil em todo o mundo e onde foi descoberta em 2015, na região de Kasur, uma gigantesca rede pedófila que envolvia mais de 300 crianças. Ou recorde-se que os jihadistas são ávidos consumidores de pornografia e, nos computadores apreendidos aos operacionais da al-Qaeda e do Estado Islâmico, cerca de 80% dos sites consultados contêm imagens de sexo explícito. Talvez isto permita alcançar o potencial subversivo da pornografia para os jovens muçulmanos, e não só. Sob a forma de imagens irresistíveis, com um poder arrebatador igual ao do ópio ou do haxixe, o secularismo ocidental desafiou a autoridade religiosa de uma forma nunca vista, sussurrando-lhe ao ouvido o desconcertante lema dos Assassinos, "Nada é verdade, tudo é permitido". De facto, nada do que existe na pornografia é real (os afectos, o sexo, o prazer gritado), mas tudo nela é permitido, pois assim o exigem as mais bizarras fantasias dos seus biliões de consumidores. Na perspectiva dos poderes religiosos, a ameaça é tão forte que só poderá ser combatida através de um apelo ainda mais intenso, o do terrorismo sacrificial, sendo o islamismo radical uma reacção arcaica à modernidade laica, de que a pornografia é um dos expoentes mais atractivos e mais intensos.

Nothing is True and Everything is Possible - o lema dos Assassinos - é também o título de um apaixonante livro publicado pelo jornalista Peter Pomerantsev em 2014, um retrato surreal da Rússia contemporânea (oligarcas, seitas místicas, prostitutas de luxo), que nos ajuda, como poucos, a compreender a actual tragédia do regime de Putin e aquilo que, através da televisão, da Internet e de magos da mentira como Vladislav Surkov, ele foi capaz de fazer em matéria de pós-verdade. Viu-se esta semana: com 190 mil soldados colocados na fronteira com a Ucrânia,o presidente russo teve o desplante de acusar a Ucrânia de "genocídio" no leste do país, responsabilizando-a pela "continuação do derramamento de sangue"(!). De caminho, rasgou os acordos de Minsk, negou à Ucrânia o direito à existência ("nunca teve uma tradição consistente como uma verdadeira nação") e, claro, ordenou o envio de tropas "de paz" para Donetsk e Lugansk. A leste, nada de novo: já tinha sido assim na Geórgia, já tinha assim na Crimeia, e o que espanta não são as mentiras descaradas de Putin, mestre da aldrabice. O que impressiona é, isso sim, que entre nós ainda haja gente que, por sectarismo abjecto, continua a amplificar e a divulgar as trapaças do ditador russo. Perante tudo o temos assistido nas últimas semanas, com o avolumar de tropas russas na fronteira e as bárbaras declarações de Putin na televisão, o patético Avante! teve o desplante de falar da "obscena campanha provocatória do imperialismo contra a Federação Russa", enquanto, nas páginas do Público, o servil Manuel Loff insistiu na tecla do "imperialismo" do Ocidente, com a sua "visão oriental e colonial da Rússia". O Óscar da sem-vergonha vai, porém, para Boaventura Sousa Santos, que diz com tranquilidade que "é provável" que a Rússia invada o leste da Ucrânia não por expansionismo, mas devido à "política de hostilização" movida pelos EUA, pela NATO e pela UE. Quer dizer, Putin já invadiu a Geórgia, já abocanhou a Ossétia do Sul e a Abecásia, já anexou a Crimeia, mata friamente os seus opositores (Boris Nemtsov, Boris Berezovsky, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Sergei Magnitsky, Natalia Estemirova, Anna Politkovskaya, Alexander Litvinenko, Sergei Yushenkov, Yuri Shchekochikhin), mas a culpa nunca é da Rússia, coitadinha, mas da "política de hostilização" do Ocidente.

A mentira em toda a parte: há dias, o ex-ministro do Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, publicou nas redes sociais uma imagem da cimeira Putin/Bolsonaro, com o logótipo da CNN e o anúncio de que o presidente brasileiro, pelos vistos um ás da diplomacia, havia conseguido "evitar a 3ª Guerra Mundial". Tratava-se de uma imagem grosseira e escandalosamente falsa, que a CNN se aprontou a classificar de "mentirosa", mas o ex-ministro Salles, ao invés de se retractar, ou ao menos calar, fugiu em frente e acusou a CNN de "ridícula", voltando à carga com nova impostura, desta feita uma capa forjada da Time a atribuir a Bolsonaro o Nobel da Paz de 2022. O problema não são apenas as mentiras, mas aquilo que recobrem: Salles é um escroque que teve de se demitir sob acusações de envolvimento num esquema de exportação ilegal de madeira do Brasil e tem vasto currículo de negociatas, crimes ambientais, divulgação de mentiras e vídeos falsos, condenações judiciais por corrupção e fraude, investigações em curso por enriquecimento ilícito e tráfico de influência. Foi ministro do Ambiente de um país como o Brasil...

Ocorre tudo isto numa semana em que, um ano após ter sido banido do Twitter e do Facebook, Donald Trump lançou a sua própria rede social, por ironia chamada Truth. A nova rede é gerida por uma empresa de Trump que se encontra sob investigação das autoridades federais e a Truth começa bem, lindamente, com suspeitas de ter pilhado o logótipo a uma modesta empresa de transportes inglesa, a Trailar. De Nixon ao Clinton do Monicagate, passando pelas armas de destruição maciça e pela vitória eleitoral de Bush sobre Gore, a América já presenciou muitas fraudes e intrujices, mas nunca foram tão numerosas e constantes como no tempo de Donald Trump, um homem que começou a mentir logo no dia da tomada de posse, em que jurou não ter chovido em Washington, mesmo com as televisões a mostrarem a assistência coberta de capas de plástico e a primeira dama a empunhar um guarda-chuva. A lista de aldrabices é infinda e deprimente: Tump disse ter sido escolhido "homem do ano do Michigan", um Estado onde nunca viveu; acusou Obama de ter ordenado a separação de famílias migrantes e gabou-se de ter acabado com essa política, quando foi exactamente o contrário; acusou falsamente um congressista de ser apoiante da al-Qaeda; semeou o pânico ao garantir, e insistir, que o Alabama ia ser alvo do furacão Dorian, quando ele passou muito ao lado (Trump chegou a mostrar um mapa falso e os seus colaboradores pressionaram os meteorologistas para mentirem). As aldrabices vão desde aspectos ínfimos e caricatos (após uma reunião com escuteiros, afirmou que lhe disseram que o seu discurso fora o melhor que tinham ouvido na vida, os escuteiros logo desmentiram) até questões graves e de grande alcance, como a tese de que a covid era "equivalente a uma constipação", que no plano sanitário "a situação estava sob controlo" e que o vírus estava a "desaparecer", num ano em que o Sars-CoV-2 vitimou mais de 386 mil americanos.

A mais anedótica de todas foi a afirmação de que as eólicas causam cancro(!), que prova bem a relação difícil e conflituosa que populistas como Trump ou Boris Johnson têm com a ciência e a verdade. O seu domínio já não é o do bem ou do mal, pois o bem e o mal são subjectivos e dependem de cada qual. Para eles, o inimigo a abater é a verdade, pois quem for capaz de iludir a verdade, que é objectiva e universal, conseguirá fazer tudo. O líder que for capaz de levar os outros a acreditarem nas suas mentiras, por mais descabeladas e inconcebíveis que sejam, tornar-se-á mais poderoso do que o Velho da Montanha. E então, como no tempo dos Assassinos, Nada será verdade, tudo será permitido.

Historiador. Escreve segundo a antiga ortografia

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