Multipolaridade, ameaças e despesas militares

Vivemos hoje já num mundo multipolar. E a evolução económica dos principais países e blocos nas próximas décadas reforçará essa multipolaridade.

Olhando para o plano militar, parece existir apenas uma superpotência - os EUA. Com efeito, de acordo com dados do SIPRI e do IISS, os EUA têm mais despesas militares que os próximos 12 países combinados e 39% do total de despesas militares globais. Mas se alguma coisa podemos aprender com a História é que as despesas militares das principais potências tenderão a aumentar à medida que o seu PIB for crescendo. Isso é já hoje visível no caso da China. E sê-lo-á amanhã no caso da Índia e da Indonésia.

Uma das tendências a nível mundial é o aumento contínuo de despesas militares. O que é tanto mais bizarro porquanto coincide com o maior período de paz global que conhecemos nos últimos 150 anos.

Tirando alguns casos em que este aumento é compreensível - Israel, Kuwait, Azerbaijão, Arménia, Afeganistão, Iraque -, noutros países isso é dificilmente explicável - Bielorrússia (31,8% da despesa orçamental), Singapura (21,4%), Omã (20,3%).

Há ainda países, sobretudo em África e na Ásia, em que a elevada despesa militar parece decorrer da influência que as Forças Armadas neles têm, não raro tendo militares na chefia executiva desses países. Mas as duas principais razões para o crescimento das despesas militares são: (i) o contínuo crescimento económico de muitos países, e (ii) o aumento do nacionalismo, por vezes mesmo ultranacionalismo, em países relevantes.

Ora, no caso europeu, sabemos bem que as principais ameaças às nossas sociedades e ao nosso modo de viver não são de natureza militar. A Rússia é hoje uma potência económica média - com um PIB que a situa entre o de Espanha e o de Itália -, cujas elites desejam uma maior articulação com a UE, e nem no Médio Oriente nem no Norte de África se divisa qualquer ameaça militar.

As principais ameaças às sociedades europeias estão de há muito identificadas na UE - "a ameaça do terrorismo, os desafios da demografia, migração e mudanças climáticas", bem como "ameaças híbridas, volatilidade económica e insegurança energética", "crime organizado e gestão das fronteiras externas", "violações dos direitos humanos, desigualdade, stresse de recursos [enquanto catalisadores de], escassez de água e alimentos, pandemias e deslocamento" (v. Shared Vision, Common Action: A Stronger Europe A Global Strategy for the European Union"s Foreign And Security Policy, de junho de 2016). Pelo que a UE se propõe "aumentar os esforços em defesa, cibernética, contraterrorismo, energia e comunicações estratégicas" (idem, p. 9). Propondo-se ainda ser mais autónoma.

Num tempo de mudança e reanálise de tantos aspetos do nosso modo de viver, é imperioso repensar a afetação de recursos para fazer face a estas ameaças. Claramente, a UE não está ameaçada por inimigos militares. Pelo que o bom senso dita que transfiramos recursos - incluindo agências especializadas - para combater o terrorismo, o crime organizado transnacional, os desafios da demografia, a gestão das fronteiras externas e as migrações e outras ameaças bem identificadas.

E que o façamos num quadro autónomo. É tempo de na UE assumirmos que os nossos interesses estratégicos nem sempre coincidem com os dos EUA.

Consultor financeiro e business developer

www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira.

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