Morrer de tédio e solidão

As imagens que procuramos esquecer, da idosa amarrada à cama e coberta de formigas, enchem-nos de vergonha e má consciência. Mas não nos iludamos: a maioria dos lares de idosos que inventámos são lugares onde se vai para morrer - de velhice, de doença e, sobretudo, de tédio e solidão. Somos capazes de mudar isto?

Ainda há pouco, os nossos mais velhos foram as primeiras e principais vítimas mortais da pandemia. Eles estavam na faixa etária mais vulnerável ao novo vírus, e o número de infeções e mortes dominou os noticiários durante dois anos. Se não nos apressarmos a esquecer as lições aprendidas na dor, uma delas é que tudo isso foi o primeiro trágico alerta para o mau funcionamento de muitos lares de idosos (residências seniores, casas de repouso, ou como lhe queiramos chamar) que passaram despercebidas à maioria da população: mais de um terço das mortes causadas por covid ocorreram nesse tipo de instituições, cujo modelo assistencial varia apenas na capacidade das famílias para suportar o internamento. A frequente opacidade na gestão interna e a falta de um sistema de fiscalização eficaz são dois fatores que impõem a urgência política de reformar o seu funcionamento.

A maioria dos lares de idosos que inventámos são lugares onde se vai para morrer - de velhice, de doença e, sobretudo, de tédio e solidão. Somos capazes de mudar isto?"

Antes, num tempo que já não é nosso, envelhecia-se e morria-se em casa. Em casas que, mesmo tugúrios, acolhiam três gerações, pais, filhos e avós. Certamente que a maioria dirá que prefere envelhecer e morrer junto dos seus. E sim, já existem sistemas de cuidados que o permitem. Mas nem sempre pode ser assim ou, pior, quase nunca é assim. O aumento da expectativa de vida e as mudanças na estrutura das famílias significam que, mesmo ampliando e melhorando os Serviços de Cuidados Domiciliários, serão necessários melhores e muito mais residências para idosos no futuro. Um estudo recente revela que há em Portugal cerca de 2500 instituições para acolhimento de idosos: 772 são privadas, dispondo de 24 mil lugares, mais os 1768 lares "sem fins lucrativos", com um total de 78 292 camas, sendo que neste último grupo avultam as 502 unidades geridas pelas Misericórdias. Acontece que, entre a falta de vagas e o desespero das listas de espera, estima-se o défice de camas se aproxime das 10 mil. E o problema é tanto mais agudo quanto se sabe que, até ao final da década, um em cada quatro portugueses terá 65 anos ou mais, e quase um milhão já estará para lá dos 80.

Escândalos como o da Misericórdia de Boliqueime, ou até mesmo a denúncia da vizinha confederação espanhola de idosos, segundo a qual há muitos milhares que são amarrados ou sedados diariamente para reduzir a agitação nas residências ou para prevenir quedas, automutilações e acidentes, não podem deixar-nos indiferentes, sendo que em maior risco estão os lares que abusam dos contratos precários para compensar a redução do quadro de funcionários especializados e a incapacidade de prestar cuidados adequados.

É, pois, urgente reclamarmos uma mudança na abordagem das condições de vida nos nossos lares de idosos e nos métodos da sua fiscalização. Em muitos casos, só precisamos de procurar copiar bem, sobretudo daqueles que já aplicam há anos o critério de que essas residências não podem ser lugares superlotados onde os idosos tenham de se adaptar às condições e necessidades da instituição, mas muito pelo contrário: são as instituições que têm a obrigação de recrutar o pessoal mais qualificado e procurar organizar-se de forma que o acolhimento seja o mais próximo possível de um ambiente familiar, onde se respeite o estilo de vida dos residentes. Melhorar as condições de vida dos nossos lares de idosos não pode ser apenas uma causa, é uma exigência social e política. E, também aqui, a oportunidade dos fundos previstos no Plano de Recuperação e Resiliência não pode ser desperdiçada.

Jornalista

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