Manter o contacto com o agressor, enquanto se apoia a Ucrânia

Numa situação de conflito entre Estados, cada palavra conta. A experiência também me ensinou que é melhor começar por colocar perguntas e ouvir atentamente as respostas, antes de se aventar uma qualquer hipótese de solução. É verdade que saber ouvir é uma arte difícil. As pessoas importantes consideram que o seu estatuto fica afetado se forem sóbrias em palavras.

No caso concreto da agressão à Ucrânia, a chave está nas mãos de Vladimir Putin. Mesmo sabendo que temos pela frente um líder manhoso, deve-se insistir para que nos diga qual é a sua proposta de saída da crise, uma proposta que terá de ser realista e respeitar a soberania dos países vizinhos.

Ao mesmo tempo e sem hesitação, é essencial que a pergunta seja acompanhada por uma referência cristalina aos princípios básicos que definem o bom relacionamento internacional e que estão perfeitamente estatuídos na Carta das Nações Unidas.

Dizer-lhe que se compreende as suas preocupações obsessivas em relação à segurança externa do seu país não é boa política. Essa frase enfraquece seriamente quem a pronuncia. Há sim que responder a essas obsessões com uma referência aos mecanismos internacionais existentes, de que a Federação Russa é signatária, e que permitem um tratamento pacífico dos diferendos entre os Estados. Foi isso que António Guterres fez, quando no Kremlin, e esteve bem.

Por outro lado, quando se fala das tragédias humanitárias, em Mariupol ou noutras localidades, a resposta deve ser igualmente clara: apenas o fim da agressão militar permitirá acabar com o imenso sofrimento que está a ser infligido às populações ucranianas. Ao dizer-se isso, está-se a fazer a ligação entre as questões humanitárias, os crimes de guerra e a problemática política. Para as Nações Unidas, o objetivo último consiste na promoção de um quadro político que permita restaurar a paz e a boa vizinhança.

O cuidado com as palavras também me leva a dizer que não se trata de modo algum de uma guerra entre o Ocidente e a Rússia, nem mesmo de uma guerra por procuração. Declarações proferidas esta semana, nomeadamente no contexto da reunião convocada pelos americanos na Alemanha, destinada a reforçar o apoio logístico à Ucrânia, foram imprudentes. Não deveriam ter sublinhado que o objetivo último é o de enfraquecer a Rússia, enquanto potência militar. O que deve ser dito é simples e precisa de ser expresso sem equívocos: a Europa, os EUA e os outros aliados estão a ajudar a Ucrânia a defender a sua integridade territorial, num processo de legítima defesa.

Os governos participantes nessa reunião poderiam ter acrescentado algo mais: a Rússia de Putin representa uma ameaça que precisa de ser contida. Se o apoio à Ucrânia falhar, a possibilidade de serem amanhã os próximos alvos de uma agressão semelhante é um receio fundado.

Estamos numa crise que se vai prolongar, com riscos e custos enormes. À medida que esses custos se acumularem, a tendência do lado russo será para o recurso a meios mais violentos e imensamente destruidores. Essa opção já faz parte dos cálculos de Putin, como o fez entender de novo esta semana em São Petersburgo. A melhor maneira de evitar o pior desfecho desse cenário passará por um aumento excecional da ajuda à Ucrânia e pela aprovação de uma nova ronda de sanções que diminua de modo determinante as receitas financeiras da Rússia e a isole ainda mais.

Em paralelo, cabe ao secretário-geral da ONU insistir na necessidade de uma solução política. O seu ponto de partida e de chegada será sempre a Carta das Nações Unidas. Depois, deverá frisar que uma crise como a atual comporta riscos muito sérios para a paz e a estabilidade internacionais, explicando claramente alguns desses riscos e as consequências dramáticas que acarretariam para todas as partes. Finalmente, será importante sublinhar que a única via razoável de saída passa pela organização de um processo político que leve a uma conferência para a paz, a reconstrução e a estabilidade no leste europeu. Ao proceder assim, estará a reforçar a credibilidade do pilar político das Nações Unidas e a trabalhar para evitar que resvalemos para um abismo de proporções insondáveis.


Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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