Mali-Costa do Marfim, o grande mal-entendido

Domingo passado, 49 militares costa-marfinenses aterraram normalmente em Bamako. À confiança, portanto, de que serão recebidos pela sua contraparte local e encaminhados para o quartel designado por estes. Em vez disso, foram todos detidos e acusados de serem mercenários que teriam como plano atentar contra a segurança do Mali, actualmente governado por uma Junta Militar, desde agosto de 2020.

Que mal-entendido, afinal, vem a ser este?

Detidos no domingo, as autoridades costa-marfinenses só se pronunciaram na terça-feira seguinte, confirmando tratarem-se de elementos do Exército regular deste país e que chegaram ao Mali, dentro do quadro das "operações de elementos nacionais de apoio", a partir de uma convenção assinada em julho de 2019, entre a Costa do Marfim e as Nações Unidas (NU). Ou seja, não pertencendo à MINUSMA (Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali), iriam reforça-la ao abrigo da referida convenção. É aqui que as próprias NU não falam a uma só voz. Estranho, para as pessoas simples como nós, que já não confiando em governos e em bancos, vemos nesta "organização azul-bebé" um último reduto de esperança para a resolução das contradições e falhas dos governos em que já não confiamos.

Numa primeira fase, vários responsáveis onusianos, de diferentes departamentos, confirmaram que estes 49 detidos não fazem parte do contingente marfinense de Capacetes Azuis, mas admitem a versão oficial do seu país de origem, a partir da convenção de apoio assinada em julho de 2019.

Trata-se, portanto, de um apoio complementar previsto e enquadrado. No entanto, foi notada a declaração hesitante de um porta-voz onusiano, terça-feira em Nova Iorque, que não desmentiu o que até então fora dito pelos seus colegas, mas "levantou uma lebre" muito interessante. Não conseguiu confirmar a missão exacta destes 49, nem a sua ligação contratual à empresa privada SAS, uma subcontratada da MINUSMA! Outro alto responsável das NU, sob anonimato, desdisse tudo o que fora dito anteriormente pelos colegas, desenquadrando os 49 do anteriormente apresentado/confirmado "quadro das operações de elementos nacionais de apoio"! A dúvida adensa-se e Abidjan exige a Bamako a libertação imediata dos militares costa-marfinenses injustamente detidos.

Da razão mais provável para estas detenções

Na Cimeira de Acra da CEDEAO (Comunidade Económica e de Desenvolvimento de Estados da África Ocidental), de 3 de julho, o Mali conseguiu o levantamento de todas as sanções comerciais, financeiras e bancárias, que faziam deste país uma "ilha-em-terra", isolada na hinterlândia saheliana. Um pacote de duras sanções fora aprovado por esta organização regional, em resposta ao golpe militar de agosto de 2020 levado a cabo pelo Coronel Assimi Goita e seus colegas de curso da Academia Militar de Kati.

Perante o calendário eleitoral para 2023/24 assumido recentemente pela Junta Militar, o Mali conseguiu convencer a CEDEAO a levantar todas as sanções no primeiro domingo de julho, contra a vontade da Costa do Marfim, que insistia em mantê-las até ver os militares afastados do leme político do país. Ora aqui fica a razão mais plausível para esta detenção colectiva e sui generis, logo na placa do aeroporto de Bamako. Mas vinganças destas, para gente simples como nós, são normais e compreensíveis. O que não esperamos é que uma organização-farol como as NU se embrulhe nestas contradições, que denunciam que a paz há muito que entrou no esquema das público-privadas! Os recursos são escassos, pois são, mas o problema é de imagem e de credibilidade e este azul-bebé há muito que começou a escurecer!


Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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