Macron, os Harkis e as presidenciais 2022

Nesta semana o presidente (PR) francês, Emmanuel Macron, pediu formalmente desculpas em nome da França, aos Harkis. Os Harkis são "os bissau-guineenses franceses" que, apesar de terem lutado ao lado do colonizador, foram por estes abandonados na hora do acerto de contas das lealdades e da honra. Serão cerca de 200 mil estes argelino-franceses, dos quais cerca de metade terão conseguido, ao longo de décadas, "reganhar" a França, após uma primeira leva de 48 mil em 1962 e anos seguintes. Até ao final do ano, o PR francês também prometeu ter um pacote de reparações pronto a apresentar a estes attentistes de justice, literalmente "esperistas da justiça", tal longa vai a espera. 60 anos!

Este é aliás e também um debate que leva décadas e que viu controvérsia reforçada quando o historiador franco-argelino Benjamin Stora entregou em janeiro último a Macron o que ficou conhecido por "Relatório Stora" sobre reconciliação e memória da colonização e guerra na Argélia. Sendo Stora O Especialista na matéria, resume toda esta problemática, que também inclui os Harkis, dizendo "os argelinos estão à espera de uma verdade sobre a sua própria história".

O timing das grandes decisões de Macron, tem obedecido ao calendário eleitoral e em crescendo. Com eleições presidenciais em abril próximo, na semana em que se celebra o Dia Nacional de Homenagem aos Harkis e Outros Membros de Formações Supletivas, assim se chama em França este dia 25 de setembro, inteligentemente o PR em pré-campanha assim faz a corte a toda a comunidade magrebina votante.

No Sahel, por exemplo, criou a ilusão no eleitorado de uma retirada total e definitiva do Mali. Em janeiro de 2020 anunciou com pompa o aumento do efectivo militar da Operação Barkhane, com mais 600 militares de alta formação e competência. Em janeiro de 2021 anunciou uma redução drástica deste efectivo e depois foi por aí abaixo. Interrupção de patrulhas conjuntas com forças locais e em junho anúncio do fim da Barkhane que seria transferida para a Takuba, que insiste em não sair do papel. Pelo meio há que realçar que o Mali sofreu dois golpes de Estado, com diferença de nove meses um do outro e feito pelos mesmos!

Para Macron naturalmente, mas também para a Europa, seria bom que fosse este o vencedor em abril. Porquê? Porque este episódio dos submarinos australianos está a criar o cisma final no seio da NATO e na Cimeira de Madrid de junho/julho de 2022, a bipolarização entre continentais e atlantistas vai reflectir a diferença entre os que querem que fique tudo na mesma e os que, para garantirem a sobrevivência da organização, só veem o caminho do alargamento do seu alcance estratégico e operacional. Se este já vai de Vancouver a Vladivostok, porque não assumir o Atlântico Norte na sua plenitude até à linha do equador? Norte de África, Sahel, África Ocidental e golfo da Guiné, passariam a estar debaixo deste radar protector. Caso isto não avance, a União Europeia será obrigada a avançar, por muito que lhe resista, para um exército único europeu e assumir-se como responsável exclusivo pela sua própria segurança.

O detalhe para Portugal é que tem pautado a sua política externa e postura na NATO, enquanto atlantista e não continental. Teremos de reflectir, que isto está a mudar muito rapidamente e corremos o risco de ficar do lado dos que não querem que nada mude, enquanto as alianças de defesa pulam e avançam!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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