Má sorte ser agosto! A "boa imprensa" do contratado serve ao contratador

Diz-se que um político tem boa imprensa quando o elogio dos jornalistas corre rápido e a critica tarda ou nunca aparece. Deveria ser ao contrário, deveria dizer-se que beneficia de ter má imprensa. Já agora, quem também tem boa (ou será má?) imprensa são os próprios jornalistas, habitualmente muito fraquinhos a escrutinar os seus pares. Por isso, passamos muitas vezes pelos pingos da chuva.

Desta vez, porque um dos sujeitos da notícia foi jornalista, diretor de três órgãos de comunicação social com quem muita gente manteve relações profissionais e de amizade, a maioria dos jornalistas/comentadores, sempre tão lestos a apontar o dedo às manigâncias dos outros, preferiu assobiar para o ar. Com o grosso da coluna de férias, entre os que ficaram com acesso ao paiol das palavras, a maioria preferiu os tiros de pólvora seca. Porque "o Sérgio isto, o Sérgio aquilo e a competência dele não pode ser posta em causa", conseguiram tapar o sol com uma peneira. Como tinham pruridos em criticar o contratado tiveram de dispensar de maior escrutínio o contratador.

É imperioso reconhecer que, antes mesmo dos conhecimentos adquiridos que dão a alguém a competência especifica para um determinado serviço, o conhecimento da pessoa certa para adjudicar esse mesmo serviço, e a relação que com ela se mantém, é também uma competência. Mas, se esta competência social é tranquila na relação entre privados, não é aceite de ânimo leve na esfera pública, por mais comum que se tenha tornado. Por uma razão muito simples, não é possível esquecer que o dinheiro do Estado é o dinheiro de todos os contribuintes.

Imaginemos que o Sérgio não se chama Sérgio, se chama João, e é amigo de infância de Fernando Medina. As competências sociais são evidentes, porque manteve viva a amizade ao longo dos anos, e tem também competências técnicas, embora não especificamente para o(s) serviço(s) contratado(s). O João teria começado com uma boa ideia para a Câmara de Lisboa, onde estava o amigo Fernando, e passava depois a ter as skills necessárias para levar o Ministério das Finanças, para onde tinha transitado o amigo Fernando, a um outro patamar das políticas públicas. O João iria receber 170 mil euros em pouco mais de dois anos, mais o que conseguisse contratar noutros lados porque não estaria obrigado a exclusividade. Feche os olhos, respire fundo, era só um "suponhamos", não há João nenhum, é mesmo o Sérgio. Se fosse o João, o país não perdoava a Fernando Medina esta utilização dos impostos que com tanto zelo nos cobra diariamente. O Sérgio, como o João, faz pela vida, o que o primeiro-ministro não deveria desvalorizar é que tudo isto aconteça desenhado pelo seu ministro das Finanças e utilizando o dinheiro dos contribuintes.

A marca que isto deixa na política e no jornalismo, onde aos olhos do povo são todos iguais, deveria provocar sobressalto no Presidente da República, aparentemente preocupado com as ondas populistas que fazem crescer a extrema-direita. Mas Marcelo é também dos que goza de boa imprensa (ou será má?) e sabe bem que chamar a atenção para a desfaçatez com que tudo acontece é mexer num ninho de vespas. Não há problema nenhum, foi tudo tão bem feito que até a data parece escolhida a dedo. O primeiro-ministro desvaloriza, o Presidente ignora, o país mediático boceja, os intervenientes fazem de mortos. Para o povo, má sorte ser agosto!

Jornalista

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