Lisboa prova o fracasso do Ministério da Saúde

Não é possível continuar-se nesta pandemia com uma atitude contemplativa, moralista e sempre atrás do prejuízo. A responsabilidade é obviamente do Governo, mas - dentro deste - da ausência de peso político e eficácia da ministra da Saúde e da sua equipa. Lisboa prova de novo a total incapacidade de se agir depressa desde o momento 1 de crises evidentes, e de se usarem outros métodos, que não os do costume - bloquear a capital ou o país. Como se não houvesse nada para aprender com a primeira, segunda ou terceira vaga. Tudo isto com a tranquilidade burocrática de quem não paga a conta.

Devemos uma palavra de gratidão a Marta Temido e Graça Freitas. Mas há que mudar para outra visão e outra velocidade. Repare-se: a 11 de maio, um camião com ecrã gigante esteve parado em frente a um estádio, um dia inteiro, perante a passividade de Marta Temido e Mariana Vieira da Silva, até 10 mil pessoas se juntarem em euforia. Seguiu-se um evento para dezenas de milhares de pessoas, com passagem de um autocarro horas e horas atrasado, rumo ao Marquês do Pombal. Todavia, não só isto foi permitido, como nada se passou no dia seguinte. Nem depois. A reação demorou quase duas semanas. Só a 24 de Maio foram desencadeados mais rastreios e testes quando a hecatombe já era mais que evidente.

Segundo os números oficiais, haverá 19 casos ligados aos festejos do título do Sporting. É de rir. Por isso, recapitulemos: a 11 de Maio, Portugal registou 268 casos. Ontem 1183. A 11 de Maio o total de casos era de 840.008. Ontem 864.109. Mais 24 mil em menos de 40 dias, dos quais sempre mais de 60% na região de Lisboa. Éramos os melhores da Europa e agora caminhamos para o pior lugar. Convém ainda acrescentar que na reunião do Infarmed, de 28 de Maio, a variante delta somava pouco mais de uma dezena de casos registados e agora poderá ter mais de 150. Culpas: no Natal foi a inglesa, agora a indiana... Não é a variante a culpada: é a velocidade a que permitimos os contágios.

Uma ministra da Saúde que reconhecesse o esforço de todos os profissionais envolvidos, teria batido com a mão na mesa no Natal e, sobretudo, prevenido um caso tão gratuito e extremo como o dos milhares de sportinguistas compactados no centro de Lisboa (mesmo que comemorassem de forma dispersa.) Mas andamos a ser tratados como burros quanto às razões de fundo. Chega-se ao absurdo de se falar, como causa determinante, o desaparecimento de um email da PSP para a Câmara Municipal de Lisboa, a dar parecer negativo à festa no Marquês do Pombal - como se fosse um problema de segurança e não de saúde pública!

Não se espera que as pessoas sejam sábias em todos os momentos, mas presume-se que o Governo conhece os portugueses e as suas idiossincrasias. Ora, para evitar isto há ferramentas que minimizam os prejuízos. E essas não são, seguramente, equipas de rastreadores a fazer telefonemas ou perguntas no terreno, como se estivéssemos em 1985. Até agora o Ministério da Saúde não conseguiu construir uma rede de informação, desenhada em cooperação com as universidades (geógrafos, sociólogos e Instituto Nacional de Estatística) que permita uma atuação fulminante no cerco às transmissões, rua a rua, empresa a empresa, com monitorização digital ao minuto, analisada por um centro de operações de "guerra". Não por acaso, nunca tivemos a informação mais preciosa de todas: o que se passa freguesia a freguesia, por todo o país. Se tudo o que o Ministério da Saúde sabe fazer é o que está à vista, perdemos sempre. E não podemos continuar assim. O país não aguenta a conta.

Jornalista

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