Lilibet e o mundo do avesso

Os mais próximos tratavam-na por Lilibet. A jovem de cabelos encaracolados, de nome Elizabeth Alexandra Mary Windsor, que havia celebrado aos 19 anos o fim da Segunda Grande Guerra, era a mesma que estava ali naquele dia de Junho de 1953, para ser coroada como a nova rainha do império britânico. Isabel II, entre nós. A pioneira transmissão televisiva da cerimónia de coroação, a partir da Abadia de Westminster, era o prelúdio de um novo mundo. O fim da guerra, o início do novo concerto das nações, o baby boom, o plano Marshall, o crescimento económico, a aviação que encurtou o mundo, enfim, tudo parecia entrar nos carris. Até a guerra fria se impôs como uma garantia da paz.

Os primeiros cinquenta anos do reinado de Isabel ter-lhe-ão dado a certeza de que o mundo, ou pelo menos o Reino Unido e a Europa, não mais passariam pelas provações da primeira metade do século XX. É certo que o império britânico, à imagem de outros complexos coloniais europeus, o português incluído, se foi esboroando, mas a manutenção da Commonwealth era a prova de que ainda existiria alguma normalidade. O papel moderador das Organização das Nações Unidas e a integração na Comunidade Económica Europeia, em 1973, mesmo depois de dois vetos da França de De Gaulle, compuseram um quadro de estabilidade que, certamente, terá deixado a rainha confiante no futuro.

O problema das vidas e dos reinados muito longos é que atravessam demasiados ciclos e cruzam-se com demasiados atores. Como os primeiros-ministros. No caso de Isabel, deu posse a quinze desses gestores máximos do Reino e arrisco-me a especular sobre a sua avaliação dos personagens, sobretudo dos mais recentes. Desde o aventureiro David Cameron que, por razões populistas, dinamizou o Brexit, até ao volátil Boris Johnson, não terá agradado à rainha uma certa italianização da política britânica. Todavia, com certeza para espanto de Sua Majestade, o pior estava para vir. Na reta final da sua vida, o mundo apresentou-se de pernas para o ar, como uma espécie de negativo da promessa de prosperidade eterna com que iniciou o seu reinado.

Foram três os cataclismos que ensombraram o ocaso de Isabel II. O primeiro foi a pandemia da covid-19. Um vírus invisível que foi capaz de fazer ajoelhar a Humanidade e que sinalizou uma vulnerabilidade escondida. Não que fosse desconhecida, mas seguramente desvalorizada, ao ponto de nos ter colhido todos de surpresa.

Depois foi o regresso da guerra na Europa. Não uma escaramuça fronteiriça ou uns resquícios da Segunda Guerra, como aconteceu na antiga Jugoslávia, mas sim o surgimento de um perigoso Putin aos comandos de uma potência nuclear, que decidiu invadir um outro país soberano. Isabel viveu o martírio da guerra e a loucura de Hitler, pelo que este reaparecimento dos tanques no Velho Continente terá sido traumático.

O terceiro desastre é o mais perigoso. Falo das alterações climáticas, que foram entrando com pés de lã no nosso quotidiano, sem dar ares de urgência, e se percebe hoje que podem ser o fim de muito do planeta e das pessoas. A menos que mudemos de vida.

Apesar do merecido reconhecimento prestado pelos súbditos ao reinado de Isabel, a Lilibet, tenho as minhas dúvidas de que tenha partido empolgada e feliz perante o mundo inseguro e polarizado que hoje vivemos.

Professor catedrático

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