Jovens e ambiciosos – um pecado

A caminho dos 900 anos de história, enquanto nação, a aproximação do cinquentenário
da Democracia representa pouco em experiência e em experimentação na linha do
tempo, face à cronologia deste "jardim à beira-mar plantado" que ocupamos e
preenchemos. Enfim, a democracia tem sido, ela própria, mais jovem do que ambiciosa,
mas sempre rica e infinita, por ser uma eterna construção e consolidação. Não obstante
a realidade recente da nossa vida democrática, há já sinais de desgaste, de erosão e de
cansaço em alguns aspetos do regime de hoje - cujas imperfeições não melindram, na
minha opinião, os melhores traços da sua identidade: a liberdade e a solidariedade,
exigindo, no entanto, grandes desafios à representação, à transparência e à proximidade
que, nestas últimas décadas têm dado espaço, em grande medida, a vícios, a repetições
dos protagonistas em ciclos fechados e a desconfianças crescentes que se foram e vão
instalando.

Apesar das imperfeições, dos defeitos e das vicissitudes, acredito num futuro
democrático mais sólido e muito mais duradouro - sonhando-o eterno - do que o
presente. Enfim, espero uma democracia maior e melhor, sempre em diante.
Não há obras sem obreiros, nem conquistas sem conquistadores. Há uns mais crentes
do que outros, mas tal como os mais céticos, só os que fazem a sua parte conseguem
alguma parte do feito.

Através desta breve reflexão, refiro-me ao tempo e às pessoas: a um tempo - que sendo
passado ou presente - se opõe ao futuro e às pessoas - que independentemente da
idade - se opõem aos mais jovens ou, no mínimo, àqueles que lhes permitem o benefício
da dúvida. Aos jovens, atribui-se-lhes muitas vezes a falta de experiência como um dos
seus maiores defeitos. Ainda bem, porque a inexperiência resolve-se com a experiência.
Resolve-se experimentando. Ainda bem que os mais jovens têm nesse um dos maiores
dos seus défices.

O Futuro leva sempre o seu tempo e precisa da história - do passado - para ser
projetado e construído. Não raras vezes, são os jovens que menos acreditam nos seus
pares e na sua geração - talvez porque não sejam capazes de acreditar neles próprios
ou, talvez, por desconhecerem a história, entendendo-a como coisa morta. Porém, a
história perpetua e imortaliza os acontecimentos e os feitos de muitos jovens de outros
tempos. Talvez muitos não saibam que Vasco da Gama, em 1947, quando descobriu o
caminho marítimo para a Índia, tinha apenas 28 anos de idade. Talvez muitos não
saibam que Salgueiro Maia, em 1974, quando liderou as forças revolucionárias durante
o 25 de abril, que pôs fim à ditadura, tinha 29 anos e integrava a geração e o grupo que
deu nome ao importantíssimo Movimento das Forças Armadas.

Os grandes embaixadores artísticos, empresariais, científicos, académicos, culturais - já
para não referir os desportistas, cuja missão exige uma idade sempre jovem para
triunfar à custa do esforço físico - de uma terra, seja ela qual for, são a sua mais nova
geração, a cada momento, os filhos dessa terra.

A juventude e a ambição são os traços comuns, sem perder de vista o trabalho, o talento
e a dedicação, que os jovens de sucesso partilham e evidenciam. Por isso, dependem
deles para fazerem bem feito e dos outros só precisam que os deixem seguir, fazer e
conquistar. Enquanto olharmos, coletivamente, a juventude e a ambição como defeito,
teremos sempre défice (de muita coisa) e seremos défice. Quando encararmos os jovens
ambiciosos como aquilo que eles são: progresso e conquista, teremos sempre mais e
melhor e seremos mais e melhor. Não é pecado ser ousado e ser futuro. Eu acredito nos
jovens, na ambição e nos sonhos de cada um, mesmo que para alguns isso seja pecado

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