João Seabra (1949-2022). O pastor rebelde

Criado numa família numerosa, conservadora e monárquica, João Seabra, nascido em Lisboa em 1949, falecido há dias na mesma cidade, poderia ter sido tudo. Filho e sobrinho de fundadores do Centro Nacional de Cultura, seria um aluno brilhante na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa muito graças a essa educação, envolta em livros e referências. Marcelo Rebelo de Sousa, seu colega de escola e de licenciatura, lembra-se bem desse tempo. "Foi ele que me converteu de introvertido a extrovertido. Estávamos todos os dias juntos no liceu, todos os dias juntos na faculdade, e ele, também todos os dias, ganhava-me cada debate." A capacidade argumentativa, até carismática, seria uma ferramenta útil para o futuro - e que teria servido outros tantos destinos. Escolheu a Fé. "Ele era um homem que ia para a política", observa outro contemporâneo. Mas não foi. No último ano do curso, telefona para o seminário dos Olivais e é recebido por José Policarpo. "Eu nunca pensei ser padre, mas convenci-me de que é o que Deus quer que seja", ter-lhe-á dito. Na ânsia de responder à vocação, pondera não terminar Direito, mas Policarpo dissuade-o e convence-o a acabar o curso. "Por ele, tinha entrada no dia seguinte." A primeira ‒ e única‒ namorada da juventude acabaria por casar com um grande amigo e nunca deixaria de ser próximo de ambos.

Seria ordenado presbítero em 1978, cinco anos depois, com a Revolução pelo meio. Desde início, apesar de uma personalidade forte, quando não impositiva, destaca-se por uma vocação quase paternal no que faz. "Um segundo pai" é como alguns escutados por esta coluna o descrevem. Foi assim com os irmãos, após o pai partir, e com a mãe, que não perdia uma missa sua, sempre na terceira fila. Mas também nas várias paróquias que chefiou, na Universidade Católica, como capelão, e no São Tomás, como impulsionador do projeto educativo do colégio. Nos Olivais, com Abril, estaria na corrente oposta ao progressismo que também contagiaria a Igreja. Quando flutuava a dúvida em torno do uso (ou não uso) do cabeção ao pescoço dos sacerdotes, João Seabra não atribuiu muito tempo ao debate: "É para usar e nunca mais tirar." Sobre o termo "católico praticante" detinha certeza similar: "Ou se é católico praticante ou não se é católico." Fruto das convicções, poderia ser tão brusco quanto caridoso ou, como lembra Paulo Portas, "tão rigoroso como bom". "Foi uma das duas pessoas com mais influência na minha formação. A outra, como muitas vezes disse, foi Vasco Pulido Valente."

"O que me fascinou nele foi a frontalidade", recorda a jornalista Aura Miguel, que também o conheceu como aluna na Católica. "Não havia ambiguidades, o que fascinava uns e irritava outros. E tinha uma certeza: a Fé." "Ou se amava ou se detestava", confirma Raquel Abecassis, autora de um retrato do cónego, publicado pela D. Quixote em 2019. "Era, sobretudo, um homem profundamente inteligente, capaz de explicar a fé como nenhum outro", sorri, grata. A "tenda de beduíno" de João Seabra, como lhe chama Aura Miguel, guiou vários alunos para um futuro profissional no qual se cruzariam com ele mais tarde, na praça pública. Nos governos de Cavaco, havia pelo menos uma dúzia de "meninos do padre João" a assessorar gabinetes. Nas redações da Renascença e do Semanário também.

O seu espírito independente manter-se-ia, muitas vezes em desacordo com opiniões predominantes entre o catolicismo português, e não só. "Era um irreverente, mas curiosamente todas as comunidades que fundou arrastaram gente de outras e muito diferentes tendências." Um pastor e, ao mesmo tempo, um rebelde. "A obediência seria a condição que lhe mais custava enquanto padre." Não lhe era fácil cumprir com o que discordava e ainda mais difícil que alguém vergasse a sua argumentação. Isso valeu-lhe inimizades e até dificuldades no percurso, sendo ordenado com um ano de demora e não chegando a bispo ou cardeal. "Ele achava que a Igreja estava a perder o combate cultural", narra um seu próximo, "então, foi travá-lo ele". Em debates televisivos e manifestações, foi porta-voz de movimentos sociais como o Pró-Vida, quando outros rostos mais hierarquicamente destacados preferiram a reserva.

Com Bento XVI partilhava a ligação à racionalidade e à inteligência, com João Paulo II a entrega e o sofrimento na fase final da vida, com o qual se identificava por ter travado lutas contra maleitas idênticas. No Comunhão e Libertação, descobriria uma casa dentro da Casa, encontrando, finalmente, um lugar na Igreja onde se sentia realmente entre pares, particularmente ligado à figura do fundador, Dom Giussani.

"Como ele dizia sobre os peregrinos: faz-se um caminho a pé até ao Céu o melhor que podemos e sabemos", lembra, em conclusão, Paulo Portas. O padre João Seabra morreu esta sexta-feira. Lá chegou. [O funeral realiza-se hoje.]

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