Horizontes e equilíbrios europeus

Vivemos um tempo de incertezas. A pandemia continua no centro de todas as inquietações. As diferentes mutações do vírus e a imensidade das campanhas de vacinação mostram que estamos longe da saída do túnel. E os impactos económicos, sociais e psicológicos ainda estão por determinar. Serão certamente enormes e de longo prazo. Na Europa, para já, socorremo-nos dos balões de oxigénio que o banco central e os expedientes políticos vão disponibilizando. Na realidade, estamos a viver da reputação e da penhora do futuro. Entretanto, vamos ficando para trás, quando nos comparamos à China ou aos Estados Unidos. E iremos receber uma parte dos problemas de uma vizinhança - a sul e a leste - que já era pobre e que verá as suas dificuldades futuras aumentar de modo incontrolável. Nada disto é pessimismo, mas sim um quebra-cabeças anunciado.

A esses desafios juntam-se os geopolíticos. Vemo-nos arrastados para disputas que não são necessariamente as nossas. A reunião de Anchorage, que colocou frente a frente, no final da semana passada, duas delegações de alto nível - uma americana e outra chinesa -, revelou que as rivalidades entre estes países atingiram uma fase aguda de antagonismo. Pela primeira vez, nem um lado nem o outro procurou disfarçar o grau de hostilidade existente. Os jornalistas foram mesmo convidados a permanecer na sala, para tomar nota das acusações mútuas, proferidas desde o momento inicial. Só depois se passou ao recato e à substância das discussões bilaterais.

Duas questões ficaram claras. A liderança chinesa saiu reforçada da sessão da Assembleia Nacional Popular, que teve lugar no início deste mês. Tem agora um mandato bem mais assertivo, interna e externamente. Por exemplo, os deputados ratificaram uma moção que abre a possibilidade de uma intervenção militar em Taiwan, caso as autoridades da ilha enveredem por um caminho que possa reforçar a tónica da independência. É uma mudança de linguagem muito significativa. Mais reveladora ainda é a nova postura perante os governos estrangeiros que critiquem Beijing. A China decidiu avançar para o duelo geopolítico sem máscara e com uma marcação taco a taco.

Entrou-se num ciclo de risco que pode levar a uma confrontação entre estas potências. E a nova visão que os Estados Unidos propõem para a Europa, através do documento NATO 2030, mete os europeus nesse conflito. O que está em cima da mesa, como se viu na reunião ministerial desta semana da NATO, é uma expansão do teatro de operações da aliança, de modo a legitimar as ambições geopolíticas de Washington no Pacífico e no Índico. Ora, essas regiões estão bem fora das zonas que nos interpelam diretamente. Para mais, uma extensão para o longínquo irá certamente enfraquecer as capacidades europeias nas geografias que efetivamente nos interessam, que estão nas fronteiras imediatas da Europa.

Podem retorquir que a China é uma ameaça económica e cibernética. Mas essas coisas resolvem-se com negociações, com medidas e contramedidas comerciais, com o reforço e a proteção das nossas economias, bem como com o aumento da capacidade de atuação dos nossos serviços de informações. Passam, em resumo, por uma Europa mais coesa.

A redefinição do papel da NATO é necessária. O horizonte que temos pela frente é muito diferente do passado. Convém, no entanto, que nos interroguemos sobre qual deverá ser, na verdade, o nosso espaço prioritário de defesa. Também convirá debater qual é o ponto de equilíbrio entre uma Europa virada para um futuro euro-asiático e a história do nosso engajamento euro-atlântico. Vejo aqui duas variáveis que devem ser equacionadas. Uma tem que ver com o nosso relacionamento a prazo com a Rússia. Vladimir Putin não é eterno. A Rússia faz parte da nossa vizinhança estratégica, das nossas complementaridades económicas e das nossas referências culturais. A outra diz respeito à autonomia de defesa e segurança da UE. Deve ser objeto de reforço permanente, sem, todavia, pôr em causa os nossos compromissos históricos com a Aliança Atlântica. Tempos de incertezas exigem que saibamos claramente que equilíbrios manter, e que caminho escolher. Trata-se de combinar coragem com visão.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG