Hammarskjöld e a consciência internacional 

Um misterioso desastre aéreo, no atual território da Zâmbia, matou o homem que John F. Kennedy chamou de "o maior estadista do nosso século". Foi há 60 anos - cumprem-se hoje - que desapareceu o mais icónico dos secretários-gerais da ONU.

Quando o seu nome apareceu pela primeira vez no Conselho de Segurança, por iniciativa francesa, Dag Hammarskjöld era de tal maneira desconhecido que a delegação norte-americana teve de investigar o currículo do sueco antes de tomar posição. Professor universitário, banqueiro central e ministro dos Negócios Estrangeiros, aquele burocrata fazia antever um consulado sereno e previsível, sem cor nem brilho.

Contudo, ainda mais surpreendente do que a sua chegada a Nova Iorque, em 1953, foi a forma como expandiu o raio de ação do secretário-geral, e das próprias Nações Unidas, em plena Guerra Fria. Arquitetou as operações de paz, nomeou pela primeira vez representantes especiais para zonas de conflito e articulou a diplomacia preventiva. A ONU, disse um colaborador próximo, tinha de "fazer mais do que organizar reuniões, debater e adotar resoluções".

Foi com Hammarskjöld, reconheceu um antigo embaixador britânico na ONU, sir Pierson Dixon, que o secretário-geral deixou de ser considerado "um símbolo ou mesmo um administrativo: tornou-se uma força". A génese dessa força era a independência que o sueco reivindicava para o secretariado e que lhe valeu duros embates com grandes decisores. Nikita Khrushchev, do púlpito da Assembleia-Geral, chegou mesmo a pedir a sua demissão.

Mais ainda, Hammarskjöld acreditava que o secretário-geral da ONU poderia ser o porta-voz de uma consciência internacional, com um papel efetivo na construção de uma verdadeira ordem global baseada em regras. Para que essa ordem fosse confiável e justa, as instituições humanas teriam de passar por uma "evolução criativa".

Seis décadas mais tarde, a missão de António Guterres continua a passar pela revitalização dessas mesmas instituições, só que agora perante uma ameaça existencial: se falhar, todo o sistema corre o risco de colapso. A criatividade servirá sobretudo para travar um recuo da história em direção a regimes autoritários e ao paradigma da competição entre superpotências. De facto, noutra roupagem, encontramos velhas ameaças à segurança internacional: uma nova bipolaridade, agora entre EUA e China; uma nova corrida ao armamento, agora no ciberespaço; uma nova fratura entre o norte e o sul, agora como resultado da pandemia que, pela primeira vez numa geração, aumentou a pobreza extrema; uma nova ameaça de extinção da humanidade, devido aos fenómenos climáticos extremos.

As propostas de António Guterres foram apresentadas, há poucos dias, no relatório A Nossa Agenda Comum. Trata-se da iniciativa mais importante deste mandato, que propõe uma Cimeira do Futuro em 2023 e que vaticina dois possíveis caminhos para a humanidade: uma crise perpétua num planeta inabitável, incapaz de responder a futuras pandemias e de corrigir desigualdades; ou uma nova era do multilateralismo, que produza um futuro verde e seguro, no qual as Nações Unidas seriam "uma plataforma confiável de colaboração entre um número crescente e diverso de atores".

No fundo, o documento pretende servir de roteiro para um sistema internacional em declínio, que se depara com um Conselho de Segurança paralisado e que, por estes dias, está reunido em Nova Iorque, na 76.ª Assembleia-Geral da ONU.

Sem Fidel nem Kadhafi, nem Mugabe ou Trump, não se espere que a semana de alto nível da Assembleia-Geral, que arranca na próxima terça-feira e que se desenvolverá num formato ainda não totalmente presencial, atinja o nível de dramatismo de edições passadas. Mas continua a ser a maior reunião diplomática do mundo e há sempre nomes que vale a pena seguir.

O primeiro chefe de Estado a discursar será Jair Bolsonaro, em campanha aberta para as polarizadas presidenciais de 2022. Nicolás Maduro também confirmou presença e o novo presidente peruano, Pedro Castillo, apontado por vários analistas como o "novo Hugo Chávez", irá estrear-se na cena internacional. Falando em estreias, a mais aguardada é, claro, a de Joe Biden.

A eleição do novo presidente norte-americano devolveu alguma esperança ao multilateralismo, mas continua por confirmar o corte prometido com a política externa de Donald Trump. A resistência democrata em apelar à contenção dos israelitas, durante a última onda de violência na Faixa de Gaza, e em liderar uma verdadeira campanha global de vacinação contra a covid-19, além da recente partilha de tecnologia nuclear com a Austrália, inquietou as Nações Unidas. Depois da saída caótica do Afeganistão, espera-se que o presidente reitere o compromisso com a cooperação internacional e que, seguindo as pisadas do antecessor, deixe novos recados à China. Afinal, na agenda de Biden constam os já famosos três "B", de Build Back Better, mas também três "C": Climate, Cyber, China.

Xi Jinping não estará presente, nem Macron ou Putin. Já Boris Johnson - que cortou o financiamento britânico a agências como a UNICEF - irá a Nova Iorque promover a sua Cimeira do Clima, em Glasgow.

No cardápio de discursos, assim como nas cimeiras e encontros laterais que formam parte da Assembleia-Geral, não faltarão juras ao multilateralismo e à solidariedade internacional. Mas na verdade, estas performances políticas dirigidas aos eleitorados domésticos e ao status quo "ONUsiano" dificilmente concorrerão para qualquer tipo de "Agenda Comum" ou consciência internacional.

* Autores do livro O Mundo Não Tem de Ser Assim - Biografia de António Guterres

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