'Gone with the wind'

Atenas, na pandemia, andou livre de turistas, havendo espaço e vagar para a vermos na beleza antiga, graças a Zeus. Entre as muitas maravilhas, a Torre dos Ventos, ou Horológio de Andrónico, do nome do seu erector, o astrónomo macedónio Andrónico de Cirro. Construída por volta de 50 a.C., com doze metros de altura, todos inteirinhos em mármore, tem planta octognal, com cada um dos lados a representar uma divindade eólica: Bóreas, do norte, Kaikias, de nordeste, Eurus, de leste, Apeliotes, de sueste, Lips, de soeste, Zéfiro, de oeste, e Siroco, de noroeste. No interior, houve em tempos uma clepsidra, movida a água vinda da Acrópole, e no topo um catavento, naturalmente, pois era a Torre dos Ventos.

Ao início, o catavento de Atenas tinha no cimo uma enorme figura de bronze do Tritão, o deus do mar com cauda de peixe cujo tridente apontava para o nome do vento que o arejava, mas é possível, até provável, que mais tarde passasse a ostentar um galo, pois assim foi determinado no século IX, quando o Papa Nicolau I ordenou que os cataventos das igrejas e das abadias tivessem no topo um galináceo cantante, em alusão ao galo que cantou três vezes antes da aurora raiar e, sobretudo, à indecisão de São Pedro, que tanto jurava Cristo como O negava a pés juntos. À semelhança do santo, também os cataventos viram para um lado e para outro, consoante o vento que levam ou trazem, não sendo essa, obviamente, a primeira nem a última associação entre os ventos e os deuses. Na Grécia antiga, existiu, inclusive, a crença numa imaculada concepção eólica, pois dizia-se que Bóreas, o vento gelado setentrional, soprava com tal vigor que era capaz de engravidar as éguas que estivessem a pastar nos campos com os quartos traseiros virados para norte, e que assim eram fecundadas sem qualquer intervenção de um macho. De resto, já os antigos egípcios acreditavam que não havia abutres machos, e que a fertilização das fêmeas se fazia pela força do vento, algo que Plínio aplicaria às perdizes, mas com uma nuance: segundo ele, existiam perdizes machos e fêmeas, mas estas engravidavam por um vento soprado pelos machos, não havendo, pois, qualquer contacto carnal, tese que, por seu turno, Virgílio aplicaria às éguas da Lusitânia.

Em árabe, a palavra para vento é ruh, que tanto pode significar "respiração" como "espírito" e em hebraico usa-se ruach, que também pode querer dizer "criação" ou "divindade". As antigas divindades helénicas do vento chamavam-se Anemoi, que deriva de anima, "alma", e que por sua vez deu o nome às anémonas; e é também grega a palavra pneuma, que tanto poderia dizer "respiração", como "sopro", como "alma" ou "espírito", abrangendo, portanto, desde os pneus dos automóveis até pneumologia, ramo dos estudos teológicos que se ocupa do Espírito Santo. Sem maçar muito com etimologias, diga-se tão-só que ventilação vem de ventus, obviamente, e que no inglês e no nórdico antigos se usavam as palavras windoge ou vindauge, ambas com o significado de "olho do vento".

Das crenças e tradições ligadas ao vento, uma das mais belas que conheço é a dos moinhos ingleses, desde sempre foram usados como fonte de energia e tracção, mas também como sinal de aviso para o perigo próximo, seja um incêndio a galopar ao longe, seja a aproximação de um exército inimigo, seja, enfim, a aparição indesejada de um cobrador de impostos. E a tradição era esta: quando morria um moleiro, tiravam-se as vinte de tábuas dos braços do moinho, e este permanecia silencioso e imóvel durante um tempo - dez, quinze, vinte dias, ou mais -, fazendo luto pelo seu dono (se fosse a mulher do moleiro, tiravam-se dezanove tábuas; num filho criança tiravam-se treze tábuas, na morte dos pais, onze tábuas; na morte do filho de um primo, uma tábua apenas).

Noutras paragens, muitas, acredita-se que os ventos são espíritos de gente que morreu recentemente e em várias culturas existe uma figura que serve de guardião dos ventos, como Éolo, na Grécia clássica, ou Feng Po Po, o deus do vento na sabedoria chinesa antiga, um ancião de barbas brancas e barrete azul, que consigo transporta um saco amarelo chamado "Mãe dos Ventos", de onde vai libertando ventos em várias direcções. Muitos povos índios da América, como os Iroqueses ou os Algonquinos, acreditavam que um deus maligno tinha os ventos aprisionados numa caverna, crença também partilhada pelos Batuk da Malásia ou pelos Maori da Nova Zelândia, numa comunhão universal de mitos e lendas que sempre surpreende e intriga, mas que talvez se explique por uma razão singela: nunca conseguimos ver um vento, mas apenas os seus efeitos, que ora surgem sob a forma de suaves brisas, ora de tempestades arrasadoras. A invisibilidade do vento e a volatilidade dos seus humores prestam-se, pois, e muito, a que os associemos aos deuses.

Os ventos são sempre masculinos, ou quase sempre, e há-os bons e maus ("de Espanha nem bom vento..."). Entre estes últimos, destaca-se o föhn, um vento quente e descendente dos Alpes, cujo nome vem do gótico fôn, que significa "fogo", pois o föhn traz consigo um risco real de incêndio; ou o sirocco, um vento quente de Primavera, vindo do Saara, e que tem vários nomes, mas também o mistral, do latim magistralis, esse um sopro frio de noroeste, com rajadas que percorrem o Vale do Reno, e do qual já Estrabão dizia ser "um vento impetuoso e terrível". Se os Himalaias protegem a Índia das frentes frias mais vigorosas, a Itália está salvaguardada pelos Alpes e a Espanha pelos Pirenéus. Já a América Norte não tem uma cordilheira que bloqueie o fluxo para sul dos ventos frios setentrionais e, por vezes, uma maré de ar polar chega até ao Golfo do México. Em contrapartida, no Canadá e a leste das Montanhas Rochosas há um vento bom, quente e seco, o chinook, considerado um "devorador de neve", cujos uivos são prenúncio de que o Inverno acabou.

Ao que parece, a maior rajada de vento do mundo, produzida por um tornado, foi registada em 12 de Abril de 1934, no cume do Monte Washington, na cordilheira dos Apalaches, e atingiu a incrível velocidade de 370 quilómetros por hora. E o sítio mais ventoso do planeta é uma montanha na extremidade da Antártida, onde há um vento constante, que sopra a 60 quilómetros por hora, todos os dias todas as noites do ano. E que dizer da "Tornado Alley", uma região que atravessa o Kansas, o Oklahoma e o Missouri, e de onde nascem cerca de 700 tornados por ano? Ou que pensar quando nos dizem que um furacão mediano precipita cerca de 20 000 milhões de água por dia, o equivalente em energia a 500 mil bombas atómicas? (o furacão Betsy, de 1965, é considerado o maior desastre natural da história dos EUA, tendo provocado prejuízos superiores a mil milhões de dólares). Mais espantoso ainda é sabermos que o interior de um monstro desses - ou seja, o "olho" do furacão, com cerca de 20 quilómetros de diâmetro - é anormalmente calmo e sereno e muitas vezes está cheio de aves que tranquilamente rodopiam em seu seio.

Numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Como mamíferos que andam erectos sobre uma base de sustentação reduzida (ou, se quisermos, sobre uma superfície que corresponde apenas a 2% de todo o nosso corpo), geralmente não gostamos dos ventos, desde logo por essa razão biológica elementar. Dos poucos ventos que apreciamos, e que consideramos benignos, destacam-se as brisas de curta duração, suaves e refrescantes, ou moderadamente tépidas, como o imbat, que aflora as costas quentes da Tunísia; o datoo, que traz ar fresco da costa oeste do Atlântico através de Gibraltar; o vento de baixo de Portugal; o medina, de Cádis; o kapalihua, no Havai; ou o libeccio, que ameniza os escaldantes (e porquíssimos) verões napolitanos.

Tudo quanto aqui é dito encontra-se num tratado completíssimo, Uma História Natural do Vento, do malogrado Lyall Watson, obra que a esclarecida editora Bazarov, de Arcozelo, deu à estampa em 2020, e que no final traz um exaustivo dicionário de todos os ventos que neste mundo existem. Ali sabemos, entre tantas coisas, que as névoas e secas avermelhadas vindas do Saara (lembram-se delas, há poucos meses?) são transportadas em direcção aos pólos e pousam em sítios tão distantes como a Cornualha e Devon e produzem chuvas de lama tão vermelhas que por vezes são confundidas com sangue. É fenómeno antigo: já Gregório de Tours dizia que, no ano 582 d.C., uma "chuva de sangue" aterrorizou de tal forma os habitantes de Paris que estes rasgaram as vestes em sinal de pânico. E é fenómeno cíclico: em 1846, as sarjetas da Provença ficaram cheias de lama vermelha e, em 1859, na Alemanha, uma área de 30 mil quilómetros quadrados ficou toda coberta por um manto róseo, arenoso; em 1901, houve copiosas "chuvas de sangue" em Espanha e em Portugal e, em Abril de 1926, estima-se que a Europa tenha sido inundada por dois milhões de toneladas de lama do Saara, a qual voltou a atacar a Suíça, em 1936, e o Luxemburgo, em 1947.

Se dúvidas houvesse sobre a interacção entre clima e cultura humana, bastaria dizer que o nascimento de todas as civilizações primitivas ocorreu ao longo de uma isotérmica em que a temperatura média anual é de 20º C e, sempre que essa temperatura coincidia com uma humidade razoável e terra arável, florescia uma nova civilização com uma regularidade infalível. Assim foi com os egípcios, com os fenícios, com os assírios e com os babilónios, com os persas, com os chineses, com os aztecas, os maias e os incas. Terá havido, sem dúvida, civilizações que despontaram e medraram em ambientes mais agrestes e a temperaturas mais baixas, mas só o fizeram depois de terem desenvolvido técnicas que lhes permitiram controlar os efeitos do clima e manter a temperatura na média amena de 20º C, não mais, não menos. Aliás, muito do que lemos na Bíblia, mormente no Velho Testamento, mais não são do que narrativas sobre desastres climáticos e, segundo se crê, o registo mais antigo de um tornado foi feito pelo profeta Ezequiel, no ano 600 a.C., quando disse: "Então olhei e contemplei uma terrível tempestade que se aproximava vinda do Norte: uma nuvem enorme, com relâmpagos e raios intensos, cercada por forte luz brilhante. O centro do fogo parecia metal reluzente" (e para quem julgue que a Bíblia é um livro sensaborão, atente-se no versículo hard core de Ezequiel 23:20, "desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram com os de jumentos e cuja ejaculação era como a dos cavalos").

O clima e os ventos foram de tal forma importantes para dominar o mundo que em torno deles sempre existiram mistérios e ocultações. Os marinheiros árabes guardavam ciosamente os seus segredos dos ventos, pois aqui residia o senhorio das costas de África e do Golfo Pérsico, numa área que se estendia pelo Mar Vermelho e pelo Índico adentro, até aos ricos domínios de Oriente, que Alexandre tentou em vão conquistar, mas que só seriam abertos pela intrepidez do nosso camarada Vasco, o da Gama. Foram os ventos alísios, de resto, que favoreceram o achamento do Brasil e, como nota Lyall Watson, é essa "propensão para oeste" dos alísios, que persistiu até aos dias das grandes embarcações de aço do início do século XX, que explica, em larga medida, o superior desenvolvimento do Brasil, em contraste com a estagnação e o esquecimento a que Angola foi votada.

Ao longo da História, o curso de muitas batalhas foi determinado pelos ventos, ou ajudado por eles, como sucedeu com a derrota da Invencível Armada, em 1588, e, três séculos antes, em 1281, com a destruição da frota de Kublai Khan pelos shimpu, os "ventos divinos" que protegeram o Japão dos invasores mongóis (ainda hoje se encontram destroços dos navios do Khan nas costas de Takashima), para não falarmos do triunfo de Temístocles sobre Xerxes, em Salamina: se os gregos não tivessem vencido os persas, não teria existido o século de Péricles, as esculturas de Praxiteles, a democracia ateniense, a filosofia de Platão e de Sócrates e, no fundo, toda a civilização ocidental, tal como a conhecemos e vivemos. É grande o poder do vento.

Não admira, assim, que os homens desde sempre tenham tentado dominá-lo. No Ártico canadiano, quando o vento soprava semanas a fio, impedindo os inuítes de saírem para caçar, estes faziam longos chicotes com algas marinhas e açoitavam o ar, gritando "Taba! Já chega!". Na Gronelândia, escolhia-se uma mulher que tivesse dado à luz recentemente e que se dirigia para a tempestade, enchia os pulmões de ar e regressava para casa com os ventos cativos no interior do seu corpo. Nos Xhosa da África do Sul, um sacerdote cuspia uma poção na direcção do vento, para que este serenasse, e, na Índia, homens santos enfrentavam as tempestades sozinhos, munidos de um bastão e de uma tocha flamejante. Na antiga Gália, venerava-se uma sacerdotisa, a barbagouin, que tinha o poder de gerar ventos e, no século XIX, Walter Scott ainda encontrou várias "bruxas dos ventos" na ilha de Man, havendo mulheres nas Shetland que vendiam ventos sob a forma de lenços atados.

Hoje, pouco resta dos moinhos de vento que pontuaram os cumes da Europa e que se calavam à morte dos seus moleiros. Chegaram a ser mais de 18 mil só na Alemanha, sete mil entre Portugal e Espanha, dez mil na Inglaterra, outros tantos na Holanda. Vemo-los agora sob novas vestes, as das eólicas que desfiguram a paisagem, mas que tão necessárias são para nos livrarmos das energias fósseis.

No recente A Planta do Mundo - Aventuras de Plantas e Pessoas (Pergaminho, 2022), diz-nos Stefano Mancuso que a principal adversidade com que as árvores se debatem, pelo menos na Europa, é o vento, ao qual se devem mais de 50% dos danos sofridos pelos nossos bosques, os quais são ameaçados não apenas pelos incêndios (apenas 16% dos danos), nem pelos elementos patogénicos ou pelos insectos, mas simplesmente por acção eólica. As perdas de árvores causadas pelo vento não cessam de crescer desde os anos 1950 e duplicaram de 1970 a 2010, passando de cerca de 50 milhões a 100 milhões de metros cúbicos. Desse modo, reduz-se em cerca de 30% a capacidade de fixação do CO² nas áreas afectadas por este massacre ventoso. E, numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Desde há muito que se sabe que a deflorestação aumenta exponencialmente o poder destruidor dos ventos. Há quem diga, inclusivamente, que o mistral teve origem no abate em massa das árvores das Cevenas, perpetrado nos tempos do imperador Augusto. Subitamente desnudado, o bosque impenetrável deu lugar a uma paisagem desolada, feita de calhaus e de arbustos, que Robert Louis Stevenson, montado num burro, descreveu admiravelmente em Os Prazeres dos Lugares Inóspitos (Relógio D"Água, 2016). Talvez seja exagero atribuir a origem de um vento à acção de um só homem, mesmo que imperador de Roma, mas o facto é que abundam exemplos, tristes exemplos, em que a imprevidência e a avidez humanas potenciaram brutalmente o poder destruidor dos ventos.

Num livro acabado de sair, As Últimas Colheitas (Vogais, Outubro de 2022), um relato demolidor dos efeitos da agricultura intensiva sobre as alterações climáticas, Philip Lymbery fala-nos da chegada em massa, nos anos 1920, de novos colonos às Grandes Planícies americanas, atraídos pelas promessas de prosperidade feitas pelos poderes públicos, por grupos económicos e por especuladores. Encorajados pelos preços elevados dos cereais a seguir à Primeira Guerra, milhares ou milhões de famílias precipitaram-se então sobre a terra virgem. O Departamento Federal dos Solos garantia que aquele era "o único recurso que não pode ser esgotado, não pode ser gasto". Na década de 1920, naquilo que ficou conhecido como "a grande lavra", foram revolvidos, destruídos, milhões de hectares de cobertura de erva, para em sua substituição se plantar trigo numa escala nunca vista, com o auxílio de máquinas e tractores. No imediato, a produção disparou 300%, houve excedentes colossais de cereais e, logo, uma abrupta queda de preços. Os agricultores viram-se então no dilema de diminuírem a produção para manter os preços em alta ou de a aumentarem ainda mais, optando por esta última solução, que veio a revelar-se desastrosa. Enquanto continuavam a lavrar cega e incessantemente, vieram oito anos de seca, instalou-se a aridez, e, como nos conta Philip Lymbery, a ausência de chuvas implicou que as plantas recém-cultivadas não conseguiram crescer, deixando o solo exposto. Os campos outrora verdes acabaram por secar. Os preços caíram mais, ainda mais, milhares de agricultores entraram em falência, milhões de hectares de antigo prado ficaram despidos, expostos aos ventos que sopravam ferozmente sobre a terra seca e poeirenta, levando a que grandes extensões se fendessem e separassem, uma dor de alma.

Então ergueram-se grandes ventos, começaram as tempestades de poeira. Em alguns locais, as nuvens de pó e terra seca chegavam aos três quilómetros de altura, ofuscando a luz do sol, cobrindo campos e cidades de um manto denso, acastanhado, impedindo as pessoas de saírem sequer à rua. O Dust Bowl, nome por que ficou conhecido, devastou, como uma praga bíblica, o oeste do Kansas, o leste do Colorado, o nordeste do Novo México e zonas enclave do Oklahoma e do Texas.

Estima-se que, em 1934, 40 milhões de terra agrícola tenham perdido a totalidade ou a maior parte do seu solo arável para os ventos. Em certas localidades, a poeira matou 90% das galinhas, as vacas deixaram de dar leite, o gado solto no pasto ficou cego, com os olhos como que colados. Cerca de dois milhões de pessoas abandonaram os estados da Dust Bowl na década de 1930, um êxodo terrível que seria narrado por John Steinbeck em As Vinhas da Ira e captado em imagens cruciantes de fotógrafos como Walker Evans, Dorothea Lange, Russell Lee ou Arthur Rothstein.

No rescaldo das tempestades, surgiram as lebres famintas. Os agricultores tinham matado os coiotes, o que agravou a praga dos coelhos bravos, que agora competiam com os humanos pelo pouco que restava no solo. As comunidades organizaram então batidas impiedosas, em que os coelhos eram encaminhados para enormes redis e aí açoitados até à morte com bastões e mocas, numa orgia de sangue e dor. Ainda hoje há quem não consiga esquecer os berros lancinantes de milhares de coelhos massacrados, o barulho ensurdecedor que faziam enquanto eram mortos à paulada por homens, por mulheres, por crianças.

O Dust Bowl e os seus ventos foram um trágico exemplo, mais um, daquilo a que podem conduzir a cupidez e a estupidez humanas. Estupidez que ainda hoje em dia persiste naqueles que ainda teimam em negar as alterações climáticas e a sua origem humana. Alguns, por ignorância ou má-fé, vão ao ponto de invocar a História e convocar o passado, com isso pretendendo dizer que outrora também houve mudanças do clima, pelo que as de hoje não serão certamente diferentes, seja na sua gravidade e alcance, seja na ausência de responsabilidade humana na sua génese. Há um par de meses, um terço do Paquistão ficou submerso pelas cheias, que causaram de imediato 800 vítimas mortais, esperando-se muitas mais, devido às epidemias e às doenças. António Guterres afirmou nunca ter visto uma "carnificina climática" semelhante. Por cá, perante uma tragédia daquelas, alguns imbecis (sem surpresa, os mesmos imbecis que questionam os confinamentos e as vacinas da Covid, que salvaram 19,8 milhões de vidas) não acharam melhor do que caricaturar Guterres e os seus insistentes alertas, alertas que, note-se, são partilhados de forma esmagadora pela comunidade científica: um estudo de 2021, publicado na revista Environmental Research Letters, concluiu que 99% dos trabalhos publicados sobre a matéria reconhecem que as actuais alterações climáticas têm origem humana. De um lado, 99% de cientistas; do outro, 1% de idiotas. Parole al vento, dizem os italianos. E nós também.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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