Gasolina p´rá fogueira

Seguindo este caminho, em breve só os ricos e os remediados poderão andar de carro. Pobres e descamisados ver-se-ão privados de mais um bem que, mesmo assim, era dos que lhes mais facilitava a dura vida. Só quem tem algum ou muito dinheiro poderá ou pagar estes proibitivos preços dos combustíveis ou trocar de carro, optando por outra tecnologia. Pois é - impôs-se a transição energética sem acautelar alternativas, sem garantir que quem precisa de carro para ir trabalhar, levar os filhos escola ou os pais ao médico não fica destituído de um meio essencial de sustento, mobilidade e de autonomia. Ao fim e ao cabo, espoliado de parte importante da sua cidadania.

Ainda antes desta provocadora descida de dois cêntimos, o governo garantia que nada há a fazer porque se tratar do mercado a funcionar, de um mercado livre, e porque o abandono dos combustíveis fósseis está até em linha com as políticas supostamente ambientalistas a serem seguidas. Na prática, o consumidor deve pagar mais 15 euros por cada depósito e, em vez de ficar revoltado e indignado, deverá sentir-se profundamente culpado por estar a poluir o planeta. Forma-se esta perversão ainda que se pague também a "fiscalidade verde". Mas de que trataram António Costa e seus muchachos para prevenir que os custos e as dores da transição energética não recaíam sobretudo em cima do lombo dos mesmos do costume, do mexilhão? É que, nas famílias e nas empresas que mal começaram a sua recuperação após esta gestão da covid, mais esta chicotada pode ser fatal.

No último ano, a gasolina aumentou 38 vezes e o gasóleo 35. Foram reforçados e altamente promovidos os transportes públicos? Passaram a gratuitos? Baixaram-se drasticamente os preços?

Divulgaram-se e possibilitaram-se outras formas de mobilidade alternativa ecológicas? Em Portugal, o país com mais baixos salários da Europa Ocidental e dos mais altos impostos, andar de carro não é uma opção. É uma inevitabilidade.

Neste último ano, a carga fiscal manteve-se sensivelmente inalterada. Ou seja, é factual que a taxação é um fardo inchado, muito inchado, mas é outra evidência que não é apenas esse insuflado que justifica as dezenas de aumentos. O que as explica também a especulação com o preço do petróleo, a cupidez do lucro, a cartelização de preços, as alterações nas margens de comercialização e refinação, os mecanismos do mercado de carbono onde jorram outros milionários.

A construção de preços está desligada dos custos de produção e baseia-se em regras artificiais, escritas a bel-prazer pelos grandes grupos económicos do sector liberalizado (ainda que a privatização tenha sido vendida como a solução mágica). De resto, possivelmente, uma descida de impostos seria muito justa mas logo absorvida, transformada em mais um aumento de rendimentos dos operadores.

Enfim, há muito que se fala numa crise energética global pós-covid que irá reflectir-se em toda a cadeia de valor, na alimentação, no vestuário, em todo o custo de vida. Tomara que não aconteça, até porque, como pelos preços dos combustíveis se constata, este governo nada fará para proteger os portugueses do esbulho e da agiotagem. Ficaremos entregues à nossa sorte... que, como se vê, não tem sido muita. Má fortuna.


Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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