Financiamento de projetos empresariais na GBA da China

A China tem vindo a criar megalópolis ou "clusters de super-cidades", sendo que as mais importantes são: (i) a Área da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau (GBA); (ii) a Área do Delta do Yangtzé; e (iii) a Área de Beijing-Tianjin-Hebei.

Neste artigo vamos focar-nos numa oportunidade na GBA, compreendendo 9 cidades + 2 RAEs em torno do triângulo Macau-Hong Kong/Shenzhen-Guangzhou, com (dados de 2020): uma área total de c. 56 000 km2, uma população de 86 milhões de habitantes, um PIB global de 1,41 biliões (similar à Rússia). A GBA foi a primeira megalópolis a ter um "Plano de Desenvolvimento" aprovado, mencionando os objetivos da área mega-metropolitana e o papel de cada uma das áreas urbanas que a integram. Um dos objetivos desta megalópolis é o "desenvolvimento de um centro financeiro internacional na GBA"; recorde-se que a GBA conta já com duas grandes praças financeiras - Hong Kong e Shenzhen. Relativamente a este objetivo, compete a Macau, no curto prazo, criar uma plataforma de serviços financeiros tendo como propósito facilitar a ligação entre a China e os países de língua portuguesa (PLP) no comércio externo e em investimento - a ratio subjacente à criação do "Fórum Macau". A médio prazo, Macau deve estabelecer um mercado de valores mobiliários. Por outro lado, quando se trate de internacionalização de empresas, incluindo para PLP, Macau, Guangdong e Hong Kong podem e devem atuar concertadamente.

O nível dos serviços financeiros atualmente oferecidos em Macau é limitado e, comparado com Hong Kong e Shenzhen, não é muito sofisticado. Entretanto, em dezembro de 2018 foi criada em Macau a Chongwa (Macao) Financial Asset Exchange Co., Ltd (MOX) que é o embrião de uma bolsa de valores. Até final de julho de 2021 já tinham sido feitas no MOX emissões e listagem de obrigações em dólares dos EUA num valor global de MOP 180 mM (€ 19 mM). Estas obrigações têm sido emitidas por empresas de Macau (bancos e operadoras de resorts com casinos) e do Interior da China (bancos, financeiras e de I&D).

Numa primeira fase, o potencial para empresas portuguesas (ou de outros PLP) reside em utilizar as praças financeiras na GBA para financiar projetos que se integrem na lógica subjacente ao Fórum Macau; idealmente projetos de parcerias luso-chinesas em África, Ásia ou América Latina, ou projetos que se insiram nas Novas Rotas da Seda (BRI), bem como projetos que contribuam para uma economia verde ou diminuam a pegada de carbono, ou mesmo projetos de infraestruturas em terceiras geografias (p. ex., em África), em especial envolvendo leasing de maquinaria e equipamento.

Nesta fase inicial, a montagem de operações de financiamento desses projetos, preferencialmente mediante emissão de obrigações, deverá ser efetuada em Hong Kong ou em Shenzhen. Numa segunda fase poder-se-á utilizar Macau, nomeadamente o MOX, para o efeito. Independentemente de a praça de emissão ser Hong Kong ou Shenzhen, as obrigações podem também ser listadas em Macau (MOX).

Esses financiamentos poderão ser feitos em dólares dos EUA ou em RMB. A política chinesa de internacionalização do RMB é um fator que poderá facilitar um financiamento em RMB, sendo que é fácil hoje proceder à conversão ou clearing de RMB.

As empresas portuguesas devem prestar atenção a esta nova forma de financiamento com enorme potencial.

Consultor financeiro e business developer

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