Fernando Echevarria do outro lado de si mesmo

O halo
onde foste minguando é só aceno
de quem se foi pensando
até ao outro lado de si mesmo.

(Fernando Echevarria)

Há uma idade em que vemos os nossos mestres "passar para o outro lado de si mesmos". Eu conheci o poeta Fernando Echevarria em Paris, nos anos 80 do século passado, e costumava encontrar-me com ele aos sábados de manhã num café que ainda existe na Praça do Châtelet, chamado Le Mistral. Sentado à sua mesa, mais vezes a escrever ou a escutar em silêncio o ritmo de um verso por compor do que a ler, o Fernando levantava os olhos quando eu chegava e perguntava, com voz grossa: "Trabalhaste?".

A princípio, pensei que ele me perguntava pelo meu trabalho na embaixada e tartamudeei um dislate qualquer. Ele afastou com energia as mãos uma da outra e disse: "Quero lá saber disso! Trabalhaste na tua poesia?".

E falávamos longamente da poesia como trabalho e não como dom divino.

O que a poesia nos faz conhecer é essa solidão (que)é sempre fundamento da liberdade onde os que a atravessam a sério são felizes, porque, ao fundo de si mesmos, cheios andam de quanto vão pensando, para citar dois poemas do nosso autor.

A poesia de Fernando Echevarria pensa, mas o pensamento dela faz-se do ritmo e do som como da sintaxe e do encadeamento dos versos. É pensar por dentro do verso e, para além da "crise do verso", encontrar a liberdade e a promessa de felicidade que a poesia é e sempre será, por todos os tempos e os modos que atravesse.

Conversávamos às vezes sobre política. Ele era fiel às suas origens revolucionárias no grupo de Argel, à memória do general Delgado e a Emídio Guerreiro, de quem foi companheiro de luta e grande amigo. Acreditava num PSD que, nesse tempo, não defendia ainda a brandura e a leveza da ditadura salazarista. Eu, socialista e amigo de algumas das suas "bêtes noires", não insistia demasiado nessas conversas. E desconheço, tantos anos passados, como terão evoluído as suas apreciações políticas. Quando nos encontrávamos, havia tanta poesia de que conversar...

António Franco Alexandre, numa excelente entrevista com que veio quebrar um silêncio de quase vinte anos, lembra esta coisa simples, que "quando se lê poesia tem de se estar a ler versos e não há como contornar isto". É que a crise do verso não dispensa nenhum poeta de ter obrigatoriamente os versos e os ritmos da sua língua na cabeça. Poetas da experiência ou poetas do êxtase, poetas da aura perdida ou poetas da irrisão, todos (se são poetas) devem saber que a poesia é, para citar uma vez mais Franco Alexandre, "o lugar do rigor, da precisão, da forma sensível organizada, da inteligência feita corpo, mão do espírito".

Fernando Echevarria vivia a poesia na solidão e no despojamento que ela exige a todos os que dela se abeiram. Por certo, essa solidão pode afastar do brilho fátuo do espetáculo social, mas não isola dos amigos, que ele tinha e muitos, e da família. Sua viúva, Flor Campino, é, aliás, também poeta, de voz diferente, mas igualmente de grande qualidade.

A solidão da poesia é outra coisa, porque ela fundamenta, como bem diz Echevarria, a nossa liberdade. Liberdade soberana de prosseguir o seu trabalho e ser fiel a si próprio e ao que se sabe e pode fazer, sem aspirar ao favor de cortes e de tabernas, de jornais e de jornalistas ou simplesmente de especialistas na maledicência e na denúncia como formas alternativas de poder.

Diplomata e Escritor

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