Falar de abuso sexual traumatiza as crianças?

Esta é uma dúvida colocada por muitos pais e cuidadores, partilhada por educadores de infância e professores. Reconhecem que é necessário abordar o tema do abuso sexual e retirá-lo da gaveta dos tabus e, ao mesmo tempo, receiam fazê-lo e potenciar alguma preocupação ou ansiedade nas crianças.

Pois bem, a primeira boa notícia é que, se falarmos de uma forma tranquila e com uma linguagem ajustada à idade e maturidade da criança, esta não irá ficar traumatizada. A segunda boa notícia é que não temos sequer de utilizar linguagem sexualmente explícita.

Prevenir o abuso sexual implica aumentar os conhecimentos das crianças sobre o abuso sexual (o que é?), ensiná-las a reconhecer ou identificar possíveis situações de risco (onde/com quem?) e a pedir ajudar/revelar uma eventual situação de abuso sexual (como?).

Para tal, é fundamental que os adultos consigam abordar este tema de uma forma descontraída e reconheçam que acontece, acima de tudo, em contextos de alguma proximidade ou familiaridade, contrariando a tendência do chamado stranger danger. As situações de abuso sexual perpetradas por estranhos são menos frequentes e acontecem sobretudo no mundo digital, que envolve algumas especificidades que as crianças também devem conhecer.

Alguns temas-chave neste tipo de abordagens são o corpo/partes privadas, os toques, as emoções, os bons/maus segredos, aprender a dizer sim/não e a pedir ajuda. Devemos ainda ajudar a criança a identificar alguns sinais de alerta associados, por exemplo, a ver, tocar ou falar sobre determinados temas ou partes do corpo.

A prevenção do abuso sexual deve ser feita, não como se de uma aula se tratasse, mas sim com recurso a atividades lúdicas apelativas, potenciando a motivação e o envolvimento ativo de crianças e adultos significativos. E para que estes conhecimentos e competências sejam mais facilmente consolidados, é importante repetir os temas ao longo do tempo, ainda que de formas diversas.

A prevenção do abuso sexual, se efetuada de uma forma adequada à idade das crianças, não as traumatiza. Pelo contrário, contribui para uma maior sensação de controlo e segurança e potencia respostas mais assertivas.

Com as crianças mais novas, em idade pré-escolar, o recurso a fantoches tem-se revelado especialmente eficaz, ajudando-as a "fazer de conta" e a simular diversas situações. Com os mais velhos, o visionamento de pequenos vídeos didáticos ou a leitura de pequenas histórias pode ser o mote para estimular depois a reflexão crítica e o debate.

A prevenção do abuso sexual, se efetuada de uma forma adequada à idade das crianças, não as traumatiza. Pelo contrário, contribui para uma maior sensação de controlo e segurança e potencia respostas mais assertivas.

Mais informadas sobre os seus direitos, as crianças sentem-se necessariamente mais seguras e protegidas.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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