Eu ainda sou de Paris

Sempre que chego uma vez mais a Paris sinto o mesmo reconhecimento familiar e a mesma incómoda distanciação que experimentei na primeira vez que por lá passei. Todos os lugares trazem consigo a memória de leituras passadas e tudo assim se torna familiar na estranheza das cidades dos outros. Esse Paris imaginado e aprendido de cor oferecia-me agora a sua rudeza e a sua distância. Em 1970 estranhavam nas lojas que eu fosse português e conseguisse falar francês sem erros de gramática. Nos cafés da Rive Gauche encontrei os portugueses exilados e desertores da minha geração e invejei um rapaz que se gabava de assistir a aulas de Barthes e de Lacan. Que privilégio, achava eu então.

A minha geração era ainda de cultura francesa. Durante o nosso período revolucionário, um camarada trotskista vindo de Paris admirou-se ao ver os livros que eu tinha em casa, porque eram os mesmos que qualquer jovem "gauchiste" francês teria na sua estante. "Imaginava" confessou-me depois "que Portugal era qualquer coisa semelhante a um país da América Latina, mas afinal vocês são bem europeus". Talvez este juízo fosse influenciado pelo francês corrente que todos os seus interlocutores da esquerda portuguesa falavam.

A minha aprendizagem do mundo começou em francês. Os poemas, as canções, os romances, os jornais sem censura, a vida lá fora, os livros marxistas trazidos da Maspéro, onde mesmo roubar livros era considerado um ato revolucionário... E, claro, todos os mitos de Maio de 68, que levaram até um reitor salazarista a gritar na nossa Cidade Universitária aos estudantes em greve: "Lisboa não é Nanterre".

A partir dos anos 80, a dominação intelectual anglo saxónica acompanhou no nosso país uma reconversão cultural, que coincidiu com o fim da Revolução e com a viragem para o centro-direita que lhe foi subsequente. O Independente libertou a direita portuguesa do cheiro de sacristia nacional conservadora que era o seu caldo de cultura, enquanto as leituras francesas passaram a ser vistas com desprezo, como apanágio dos pobres "indígenas" que éramos, nos termos de Vasco Pulido Valente. Os anos 80 eram brilhantes e superficiais, mas inscreviam uma promessa de felicidade no discurso da direita, que contrastava fortemente com o culto da mediocridade e da pobreza da era de Salazar, culto retomado anos mais tarde pelo governo de Passos Coelho. Nesses anos de refluxo, ao nosso discurso austero de militância contrapunha-se uma feroz apetência de vida e de alegria, que foi só possível com a liberdade. Foi o momento de glória da cultura da direita entre nós e representou a sua desejável integração na normalidade do espaço cultural, onde antes apenas brilhava, vinda desses lados, a voz solitária de Agustina.

Que os anos 80 falassem inglês e repudiassem como anátema todas as influências francesas decorria desse espírito contra revolucionário, que não tardou muitos anos em passar daquela alegria libertária para o ressentimento e a paixão sado-masoquista da austeridade. Nesse tempo os liberais ainda se intitulavam "esquerda liberal", as leituras inglesas eram exibidas com o mesmo orgulho ingénuo com que eu olhava em 1970 para os intelectuais franceses e o descrédito das políticas emancipatórias era crismado de "fim das grandes narrativas".

Entretanto, o meu francesismo rejubilava com a eleição de Mitterrand em 1981, com a aliança de esquerda firmada no "programa comum", com a promessa que resplandecia na rosa levada pelo novo presidente ao túmulo de Jean Jaurès. Muitas desilusões vieram depois, com a França e com o mundo, mas eu continuei fiel a uma ideia de autonomia da Europa, que deve muito a alguém que não era de esquerda, o general De Gaulle.

Quando De Gaulle, no fim da sua vida, se comparou a Tintin, o pequeno que desafia os grandes e os poderosos, definiu o seu grito de orgulho e independência face a um mundo que se formatava e uniformizava em inglês básico e rudimentar.

Agora, à medida que avança a guerra da Ucrânia, esvaem-se as veleidades de uma Europa independente e senhora da sua estratégia e aumenta o peso das chamadas "democracias iliberais" dentro da União Europeia. Não sou antiamericano: mas sou europeu e não queria, durante o meu tempo de vida, ver um qualquer renascido Trump tratar a Europa como mais um Afeganistão a ser abandonado friamente ao seu destino.

Também por isso continuo a falar francês.

Diplomata e escritor

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