Entre os dois… a defesa da Democracia

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Ao longo desta campanha presidencial manifestei publicamente, em relação aos principais candidatos, a minha posição. Mantive - e mantenho - tudo o que disse sobre a fragilidade de algumas propostas, sobre as ambiguidades políticas, sobre as hesitações estratégicas e sobre a ausência de uma visão verdadeiramente mobilizadora para o futuro do país.

Nada disso mudou.

O meu candidato foi, desde o início, o almirante Gouveia e Melo. Pela sua independência, pelo seu sentido de Estado, pela sua clareza de princípios, pela sua experiência institucional e pelo seu compromisso com a Constituição. Considero, sem hesitação, que teria sido o melhor Presidente da República para Portugal neste momento histórico em que o direito internacional é palavra vã, a democracia liberal se deslaça e as ameaças no domínio externo impendem seriamente sobre nós, a Europa e o mundo. Contudo, a democracia é feita de escolhas coletivas, e o eleitorado decidiu de forma diferente. Respeito, como não podia deixar de ser, esse resultado.

Chegados à segunda volta, o cenário é claro: os portugueses são chamados a escolher entre António José Seguro e André Ventura. Não se trata agora de escolher o candidato ideal. Trata-se de escolher perante as possibilidades.

André Ventura representa uma visão de confronto permanente, de radicalização do discurso político, de simplificação populista dos problemas complexos e de tensão constante com os valores fundamentais da democracia liberal. A sua estratégia assenta na divisão dos portugueses, na exploração do medo, na retórica agressiva e na transformação da política num teatro de conflito. Estará, como disse, mais vocacionado para funções executivas que não são atributos do nosso sistema semipresidencial que, possivelmente, sofreria uma translação presidencialista em que coincidiriam visões idênticas com a maioria parlamentar que ambiciona. Esta é uma possibilidade não despicienda.

Enquanto o Estado de Direito não for vítima do que se vem passando por cá e no mundo em que vivemos, e em que vamos viver, a Presidência da República não pode ser um palco catalisador do confronto que, dividindo os portugueses, nos enfraquecerá e nos tornará num Estado verdadeiramente exíguo. Pelo contrário, deve ser um espaço de moderação, equilíbrio, respeito institucional e defesa da Constituição. Mas também um espaço de exigência, de firmeza de convicções, e de mobilização para um futuro de dignidade para todos. Mesmo para todos.

António José Seguro, apesar das reservas que muitos - incluindo eu - mantêm quanto ao seu percurso, às suas posições passadas e à sua hesitação política, representa, ainda assim, uma opção democrática, institucional e previsível. Não promove a rutura, não aposta na polarização e não coloca em causa os pilares do Estado de Direito.

Seguro não entusiasma, mas também não assusta. Não promete revoluções, mas promove a estabilidade. Não lidera com carisma, mas respeita as regras do jogo democrático.

Num momento em que a extrema-direita e a direita radical ganha espaço em várias democracias europeias, importa que a Presidência da República seja um contrapeso à radicalização e não o seu amplificador

Não se trata de apoiar cegamente António José Seguro. Trata-se de impedir que Belém seja ocupada por um projeto político que vive da tensão social, da desconfiança nas instituições e da permanente lógica de “nós contra eles”. Trata-se, pelo menos, de ter um Presidente de todos os Portugueses.

Mantenho tudo o que disse relativamente aos candidatos na primeira volta. Mas, na segunda, a escolha impõe-se: entre a instabilidade e a previsibilidade, entre a divisão e a moderação, entre o populismo e a democracia institucional, António José Seguro é, claramente, o candidato em que votarei.

Hoje, é precisamente isso que está em causa: escolher o melhor caminho possível para o país e o que melhor protege os valores fundamentais em que acredito e pelos quais sempre me bati e baterei.

Almirante

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