Enquanto alguns dormem - Língua portuguesa em perigo

Comemorou-se recentemente de forma discreta e apagada o Dia da Língua Portuguesa. Que balanço fazer da Língua Portuguesa no mundo hoje? Uma língua viva, vibrante e em expansão na América Latina, uma língua útil de comunicação e trabalho das elites governantes em diversos países africanos, uma língua praticamente extinta na Índia, uma língua em declínio e em perigo na Europa.

Por impulso e influência do Brasil a Língua Portuguesa é ensinada como segunda língua em vários países da América Latina e tenderá a ser uma segunda língua nesta região. Se o Brasil conseguir o almejado lugar no Concelho de Segurança das Nações Unidas a Língua Portuguesa, na sua versão brasileira, poderá vir a ter uma maior presença em várias instituições internacionais.

Na Europa contudo a Língua Portuguesa enfrenta sérios desafios de sobrevivência. Desde logo o declínio demográfico. À medida que a população diminui a língua vai perdendo falantes. A emigração também retira potenciais falantes, já que as segundas e terceiras gerações perdem o contacto com a nossa língua, a maioria não a escreve e a muitos nem a falam com fluência.

Mas há outro perigo: a União Europeia. Na União Europeia convivem um conjunto alargado de línguas. A língua materna mais falada é o Alemão seguida do Francês. Outras línguas com número significativo de falantes são o italiano, o espanhol e o polaco.

Não havendo predomino de uma única língua, tem vindo a ser implementada uma estratégia de ensino de uma língua comum a todos os cidadãos da União. Essa estratégia elegeu o inglês como língua franca, apesar de na União apenas a pequena Irlanda o ter como língua oficial. O peso do português no conjunto da União é menor do que línguas como o árabe ou o russo, que não são línguas oficiais de nenhum país membro.

Tendo a União Europeia 24 línguas oficiais, sendo a portuguesa uma delas a par com o croata, o finlandês, o dinamarquês, etc.., a política é de, compreensivelmente, reduzir esse número.

Nas instituições da União Europeia existe já uma tendência para adotar o inglês como língua de trabalho ou mesmo língua oficial, veja-se o Banco Central Europeu que já funciona exclusivamente em inglês. No Tribunal de Justiça Europeu a língua comum de deliberação é o francês, a Comissão Europeia tem como línguas de trabalho o Francês, o Alemão e o Inglês.

As línguas menores estão a ser relegadas para fora do arco das línguas institucionais. Apenas no Parlamento Europeu as línguas oficiais são faladas, mas na verdade cada vez menos, uma vez que muitos deputados optam por falar em inglês, francês ou alemão. Segundo o jornal The Guardian as seis línguas mais faladas no Parlamento Europeu em 2012 foram o inglês (129 horas), o alemão (76), o francês (38), o italiano (36) e o espanhol (22). O predomínio do inglês é evidente.

Vamos deixar de falar português no nosso país? Sem dúvida que não. Mas atenção será cada vez mais difícil obter emprego sem o domínio do inglês, do francês ou do alemão. Hoje operam em Portugal call-centers que atendem clientes estrangeiros e que trabalham essencialmente nas línguas referidas, também se instalaram cada vez mais empresas multinacionais em que a língua de trabalho interna é o inglês ou o francês. A língua de trabalho em Portugal já é hoje para muitos portugueses uma língua estrangeira.

A língua das publicações académicas e dos trabalhos científicos é atualmente o inglês. Na área da ciência sem o inglês as possibilidades de trabalho reduzem-se fortemente. No ensino superior os livros e os artigos de referência não estão na maioria dos casos traduzidos para português de Portugal, pelo que podem ser lidos apenas na variante brasileira ou na língua estrangeira original. O espaço do português está a reduzir-se no nosso país.

Assim, enquanto alguns dormem e outros festejam a prazo, o português na União Europeia, perde falantes e contínua em declínio e em perigo. Se nada for feito será uma língua minoritária, marginal, com poucos falantes, de caráter regional que poderá inclusive perder o estatuto de língua oficial.

Em tal circunstância fará sentido em países como Angola, Moçambique ou Guiné, fazer um esforço de ensino do português, uma língua em declínio na Europa, ou será mais lógico escolher uma das línguas faladas no país como língua franca, ou mesmo o inglês. Recorde-se que tanto Moçambique como a Guiné pertencem já a outros espaços em que a língua oficial é o inglês ou o francês.

Poderá o Brasil ser o agregador e impulsionador da língua portuguesa no mundo?

Como pode Portugal romper este ciclo de declínio da nossa versão da Língua Portuguesa? Eis um debate que urje.

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