Em nome de um bem maior. Balanço da saúde mental após um ano de covid

Quem acha que a tristeza pode matar mais rapidamente do que um germe (parafraseando John Steinbeck, Travels with Charley: In Search of America) ainda não travou conhecimento com a impiedosa covid-19. Em tempos de pandemia, atentos o alarmante número de mortos e de infectados, foram implementados pelo mundo fora (i) medidas de afastamento social, como o isolamento, indicado para quem teve contacto ou foi diagnosticado com a infecção e não requer internamento, (ii) medidas de distanciamento social, como a manutenção de uma distância de dois metros de outras pessoas, o teletrabalho, o recurso a serviços telefónicos ou digitais e as entregas ao domicílio, que visam reduzir a interacção social e, consequentemente, cadeias de contágio e (iii) longos períodos de confinamento. Isto é, em nome de um bem maior, a preservação da vida humana, foram estabelecidas severas restrições sociais (perfeitamente justificáveis desde que adequadas, proporcionais e legítimas) para reduzir a propagação do imprestável vírus.

Para alguns, a mudança trouxe atenuação de níveis de stress, mais tranquilidade e bem-estar. Nestes casos, a ausência de contacto social foi amplamente compensada por momentos que só o fim de semana e as férias usualmente comportam. Todavia, como notava Aristóteles, o homem é inerentemente um animal social, pelo que para muitos certas medidas de combate à covid-19 tiveram, segundo múltiplos estudos, preocupantes repercussões a nível da saúde mental. Com efeito, a quebra de rotinas, o reduzido contacto social, o medo de sucumbir ao vírus e a turbulência financeira tiveram um forte impacto na saúde mental de crianças, de adolescentes e de adultos (Journal of the American Academy Child and Adolescent Psychiatry). Verificou-se um acréscimo acentuado de perturbações do sono, de distúrbios alimentares e de comportamentos de automutilação em menores de 18 anos (The Guardian). A taxa de pensamentos suicidas aumentou, especialmente entre jovens adultos, durante períodos de confinamento (British Journal of Psychiatry), ao que tudo indica devido a uma ampliação de sentimentos de angústia (Pediatrics). Os jovens revelaram-se psicologicamente mais vulneráveis em tempos de pandemia, talvez em virtude de uma forte necessidade de interacção social que ficou por suprir (Nature). Sem embargo, também na população adulta foram observadas queixas abundantes no campo da saúde mental, como ansiedade e depressão, agravadas quando a par do confinamento sobrevém o desemprego (53% versus 23%) e/ou o encerramento de creches e de escolas (49% versus. 40%) - KFF Health Tracking Poll. Os profissionais de saúde que têm estado na linha da frente não se encontram imunes ao abalo mental causado pela pandemia, tendo sido registados na China, por exemplo, elevados níveis de depressão (50%), de ansiedade (45%) e de insónia (34%) entre os mesmos - Organização Mundial da Saúde (OMS).

Acresce que o incremento de transtornos de foro mental foi acentuado pela interrupção da prestação de cuidados de saúde correntes em muitos países, em função, por exemplo, da conversão de instituições que prestavam cuidados de saúde mental em centros de atendimento para pacientes com covid-19 e/ou o encerramento de serviços presenciais. Isto é, a estratégia antivírus adoptada, em geral, pelo mundo fora, minorou malefícios inevitáveis (como infecção e mortalidade), forneceu balões de oxigénio financeiros em sede de prejuízos previsíveis (como insolvência e desemprego) mas não velou por lesões não contempladas (danos mentais) - a não ser, por exemplo, em Madrid onde foi decidido que tendo mais de 60% de camas hospitalares destinadas a pacientes de saúde mental sido cedidas para cuidados pandémicos os referidos pacientes (de saúde mental) em estado crítico teriam de ser transferidos para clínicas privadas para garantir continuidade de tratamento (OMS).

Constatada, tardiamente, a importância de integrar a saúde mental no planeamento da preparação e da resposta a futuras emergências de saúde pública, a apresentação de uma proposta sobre este tema (patrocinada por mais de 40 Estados membros) aquando da 74.ª sessão da Assembleia Mundial da Saúde, não surpreendeu. Como bem advertiu Tedros Adhanom Ghebreyesus (director-geral da OMS), "tornou-se claro que os cuidados de saúde mental devem ser elemento central da resposta e da recuperação pandémicas (...) e que não levar a sério o bem-estar emocional da população terá elevados custos sociais e económicos a longo prazo para a sociedade como um todo".

As orientações da OMS sobre este tópico serão fundamentais para a gestão de futuras pandemias; não para esta. No que a esta toca, o cálculo do fim da pandemia invoca metaforicamente o conceito de maratona e não de sprint. Por um lado, a vitória de um ou mais países no atinente à vacinação não se traduz em triunfo universal (uma vez que o alcance de imunidade de grupo mundial sofrerá atrasos inevitáveis decorrentes da subsistência de ritmos vastamente diversos de inoculação pelo globo fora). Por outro lado, ainda é cedo para prever com rigor o impacto da pandemia em termos de saúde mental, perdurando, porém, o receio de que as suas sequelas mentais permaneçam por bastante tempo (Centre for the Study of Traumatic Stress, Maryland), as quais incluirão, designadamente, a elevação de: taxas de incapacidade, de perda de produtividade e do recurso a cuidados de saúde (Plos One). A pandemia da covid-19 revelou e potenciou uma fragilidade na natureza humana não percepcionada, deficientemente abordada e com consequências mal caracterizadas. Por conseguinte, qualquer projecto de reconstrução passará, forçosamente, não apenas pela recuperação da economia como também pela reversão dos efeitos colaterais das medidas anticovid-19 na arena mental. Enquanto voarmos sobre um ninho de cucos (invocando hiperbolicamente o brilhante clássico cinematográfico de Milos Forman) não vamos longe ...

Filipe Froes é pneumologista, consultor da DGS, coordenador do Gabinete de Crise Covid-19 da Ordem dos Médicos e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Patricia Akester é fundadora do Gabinete de Propriedade Intelectual/Intellectual Property Office (GPI/IPO) e Associate, CIPIL, University of Cambridge

Os autores escrevem de acordo com a antiga ortografia.

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