Em memória de Ana Luísa Amaral

Nunca senti qualquer angústia de influência", contava-me Ana Luísa Amaral e acredito que assim fosse. Os nossos mestres pesam-nos mais quando se interpõem entre nós e o que ambicionamos seja o julgamento pela posteridade daquilo que fizemos. Mas a Ana Luísa nem pesavam os mestres (Emily Dickinson, em primeiro lugar) nem inquietava a posteridade. Ela achava, na verdade, essas angústias próprias da masculinidade, da permanente rivalidade que a condição masculina nos viria impor. E se nas mulheres por certo existem também, sempre prontas a emergir, rivalidades e competições, não há dúvida que, na Ana Luísa, a relação com a obra tinha a serenidade do que é evidente de fazer e a seriedade do que é difícil de fazer: por isso não a preocupava nem a disputa da notoriedade presente nem a angústia com a memória futura.

É que os escritores não disputam entre si apenas a notoriedade das suas imagens públicas: essa notoriedade só lhes interessa enquanto puder, de qualquer forma, formar ou determinar o juízo do futuro. É para os que virão depois que escrevem, porque é mais fácil suportar a indiferença do presente do que a ideia (contudo bem provável na maioria dos casos) do total esquecimento pelo futuro.

"Se eu morrer/ quero que a minha filha não se esqueça de mim" - este é o único pedido que na sua poesia Ana Luísa Amaral faz à posteridade. E que a filha "mais tarde diga à sua filha/ que eu voei lá no céu". É a posteridade da sua memória como pessoa e não da sua obra que é invocada neste seu poema Testamento. Como David Mourão Ferreira na sua Ladainha dos póstumos natais, mas sem a angústia pascaliana do poema de David.

"Se eu morrer/ quero que a minha filha não se esqueça de mim" - este é o único pedido que na sua poesia Ana Luísa Amaral faz à posteridade.

Por isso ela não odiava nem invejava os seus camaradas de letras e era a pessoa mais afável e amigável que se podia encontrar nos foros literários. Porque, na verdade, as invejas e competições entre escritores podem ter como ponto de partida as suas relativas notoriedades, mas, em última instância, são determinadas pelo pavor de que lhes possa ser roubado o seu lugar na posteridade.

Quando eu era um adolescente recém-chegado da província, tive oportunidade de conhecer um romancista que muito admirava. Durante todo o tempo que estive na mesma casa onde perorava esse romancista (que nem reparou em mim), só o ouvi increpar e diminuir um outro romancista, que então começava a afirmar-se. O problema do romancista mais velho não era a possível perda de notoriedade para o mais novo (a reputação do primeiro estava consolidada), era antes a ameaça que o novo escritor fazia pesar sobre o lugar que lhe seria dado a ele pela posteridade.

Cinquenta anos depois, pondero a imagem que têm hoje aqueles dois escritores, ambos falecidos. Pela maioria das pessoas não serão muito conhecidos, embora tenham vindo a ser periodicamente reeditados: lembram-nos os estudiosos e os amantes da literatura (círculos nem sempre coincidentes), são relidos às vezes (poucas) para ilustrar um argumento ou propor uma tese. Se a algum leitor ainda encantam e apelam, será a um desses leitores desconhecidos que recebem a palavra literária "no segredo dos seus corações", como dizia Julien Gracq e eu repito. Desapareceram naturalmente da notoriedade da nossa época e (ainda?) não conquistaram o peso dos clássicos.

Talvez então a angústia mais profunda, mãe de todos os ciúmes e rivalidades e da própria "angústia de influência", seja esse medo de ser esquecido, que é mais uma manifestação do nosso medo da morte.

Ana Luísa Amaral tinha medo da morte, como todos nós: mas o confronto dela com a finitude e a continuidade fez-se através da filha e não da obra, como cabe a quem seguiu o dito de Pessoa "Não meu, não meu é quanto escrevo/ A quem o devo?" e entendeu profundamente o poema de Emily Dickinson "Unable are the loved to die, for love is immortality".

Diplomata e escritor

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