Nomes e coisas

Na entrevista que ontem concedeu ao DN e à TSF, Francisco Assis foi coerente e manteve a linha em que se movimenta desde há muito. Criticou o rumo ideológico do PS e as derivas esquerdistas do partido e diabolizou o PCP, o Bloco e também o papel dos sindicatos. Sucede, porém, que Francisco Assis é militante e alto quadro partidário de uma organização batizada como Partido Socialista, cuja matriz fundacional é o centro-esquerda. Não deixa por isso de ser estranho que Assis, sem prejuízo da sua liberdade de pensamento e da sua coerência ideológica, sem esquecer as diferenças profundas que existem entre as forças do lado esquerdo do espetro político, entenda que os parceiros preferenciais de diálogo do seu partido sejam a direita e não a esquerda. A mesma confusão parece estar instalada no campo adversário do PS. O PSD, que se chama Partido Social Democrata e que nos tempos da fundação quase se deixou tentar pela adesão à Internacional Socialista, tem dispensado alguns dos seus dirigentes para serem pontas-de-lança no apoio, por exemplo, às pretensões de financiamento público dos colégios privados, mesmo que isso implique prejuízo para a escola pública. Nada contra a liberdade de pensar ou de escolher. O ponto central desta reflexão é saber se os rótulos valem alguma coisa. Isto é, tal como as ideologias os nomes são uma espécie de bilhete de identificação dos partidos que nos ajudam a fazer as nossas escolhas. E convém que a bota bata com a perdigota, que é como quem diz, que o nome seja concordante com a prática e com as ideias políticas. Se a ideia é confundir e baralhar, então que não se mexam. Mas se, pelo contrário, o objetivo é ser fiel ao pensamento, então de duas uma: ou mudam as pessoas ou alteram os nomes dos partidos. O que não existe é socialismo sem diálogo à esquerda e com desprezo pelos sindicatos, nem social-democracia sempre de costas voltadas para a escola pública.

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