Ninguém é como ele foi

De Mário Soares sempre se pôde esperar o que de nenhum outro político se esperaria. A Soares tudo se perdoava. Ninguém amou tanto a liberdade como ele

Como numa montanha russa, Soares teve uma vida recheada de altos e baixos, fosse a propósito das relações de amizade que cultivou, fosse a propósito dos resultados eleitorais. Na vida de Mário Soares nada foi dado como garantido. Por isso colecionou ódios e paixões. Onde é possível obter um mais largo consenso é no papel que ele desempenhou para consolidar o sistema em que vivemos. Morreu o pai da Democracia portuguesa! Escrevo este editorial com um testemunho pessoal. Tive o privilégio de partilhar com ele um curto espaço de vida. "O que está aqui a fazer?", perguntou-me Soares no primeiro dia em que comecei a trabalhar com ele. A pergunta surgiu na sequência de outras, numa conversa que dava início à minha assessoria de imprensa ao cabeça-de-lista do PS às eleições Europeias de 1999, e veio imediatamente a seguir à pergunta sobre o meu sentido de voto nas presidenciais de 1986. Votei Freitas do Amaral, na primeira e na segunda volta. E cheguei a usar o autocolante que dizia "o meu Presidente é o outro", quando Mário Soares foi eleito Presidente de todos os portugueses.

Depois desta conversa, passei os três meses seguintes a percorrer o país com ele. Descobri um homem fascinante, com uma história de vida que me fazia crescer à medida que me ia sentindo mais pequeno, por não ter vivido um milésimo dos testemunhos que me chegavam. Conversas no carro dele, num almoço numa terra perdida na serra ou num lanche numa pastelaria de Campo de Ourique e em muitos outros locais. Fascinado por um estilo de vida que eu desconhecia ser possível. Soares não tinha uma moeda no bolso, não usava um cartão multibanco, nem um cartão de crédito. Foi assim naquela campanha. Mário Soares, descobri eu no final do século, era mesmo o bochechas que o país inteiro consagrou, com uma popularidade que só agora Marcelo consegue igualar. Pelo país inteiro houve socialistas para o receber e, mais do que isso, homenagear, distribuindo abraços de gratidão, sorrisos, disputando o direito de pagar a conta daquele encontro.

A relação não começou fácil. Soares tinha descoberto que tinha a trabalhar com ele, alguém que podia, afinal, não estar ali de corpo e alma. Eu ainda não era nascido e já Soares lutava pela liberdade, que chegou com o 25 de Abril e foi confirmada com o 25 de Novembro. Nasci para a política em Abril de 74, lendo jornais com o meu pai que, desde a primeira, se tinha feito PPD, apoiante sem dúvidas de Francisco Sá Carneiro. No meu passado havia igualmente lágrimas derramadas pela morte do primeiro-ministro da AD. Soares sabia de tudo, porque tudo quis perguntar. A liberdade desta conversa era a ele que a devia.

Aquelas Europeias tinham a vantagem de ter grandes políticos disputando a vitória. Pacheco Pereira pelo PSD, Paulo Portas pelo CDS e Ilda Figueiredo pela CDU, devolveram a Mário Soares, três anos depois de deixar a presidência da República, o gosto pelo combate político. Guardo na memória um debate na SIC, com intervalo, e em que Mário Soares, tendo estado displicente na primeira parte, corrigiu o tiro na segunda e acabou por sair vencedor.

A campanha fez-se com Soares sempre bem disposto e obtendo o melhor resultado (até então) do PS, mas a família europeia, ficando aquém das expectativas, não permitiu a eleição de Mário Soares para a presidência do Parlamento Europeu. António José Seguro, número dois da lista socialista, seguiu com Mário Soares para Bruxelas e eu optei por seguir outro caminho, regressando mais tarde ao jornalismo.

Desse tempo guardo também a memória da amizade profunda que Mário Soares sentia por Seguro. Estranhei, por ser tão evidente a admiração que os dois tinham um pelo outro, quando anos mais tarde vi como Soares podia ser tão duro, porventura até ingrato, com Seguro, para tomar parte numa disputa eleitoral interna. Soares também era isto, oito e oitenta na relação que mantinha com os que viviam na sua órbita. Tinha sido assim com Salgado Zenha, foi assim anos mais tarde com Manuel Alegre, foi assim com Seguro, foi assim tantas vezes. A uma escala microscópica, numa experiência única de vida mas muito curta, foi assim comigo.

Estava eu diretor da TSF e João Marcelino diretor do Diário de Notícias, fomos entrevistar Mário Soares, numa altura em que ele fazia declarações políticas sem travões. Nessa entrevista, Soares estava já zangado com o governo de Passos Coelho e não suportava Cavaco Silva. Em defesa de Sócrates (o ex-primeiro-ministro ainda não era arguido no operação Marquês), lembrou aos jornalistas que os adversários do ex-primeiro-ministro tentaram de tudo para o tramar, fazendo inclusive insinuações sobre a orientação sexual do ex-líder do PS. Soares quis dizer que não era homossexual e, tendo-me tomado de ponta, perguntou: "E você, ó direitolas, pode dizer o mesmo?" De Soares sempre se pôde esperar o que de nenhum outro político se esperaria. A Soares tudo se perdoava.

Ninguém amou tanto a liberdade como ele, ninguém lutou tanto por ela. Não a queria mais para si do que a queria para todos os outros. Por isso, Soares colecionava amigos e inimigos, com a mesma facilidade à esquerda e à direita.

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