Lula, a cara da vergonha

Lula da Silva, em tempos herói da esquerda brasileira e inspirador dos partidos progressistas à escala global, prepara-se agora para ser coveiro dos valores e das conquistas que o seu partido, o PT, conseguiu. E, por arrasto, ameaça contaminar todos os partidos que nele viram um farol. Alçado a ministro da Casa Civil do governo Dilma - o equivalente ao primeiro-ministro dos modelos parlamentaristas - para escapar ao julgamento do juiz Sérgio Moro, é um expediente que envergonha qualquer democrata. Na verdade é um insulto ao Estado de direito e ao povo que durante anos lhe confiou o voto. Foi a meio do segundo mandato que Lula rejeitou uma alteração constitucional que lhe permitiria voltar a concorrer ao Planalto, num tempo em que a popularidade do presidente continuava com cotação elevada. O gesto, até por contraste com o seu antecessor Fernando Henrique, gerou apreço e simpatia em todo o mundo. Afinal revelava desapego pelo poder e respeito pelos limites da Constituição, o que não era comum nas democracias sul-americanas. Hoje, somados os escândalos em que se viu envolvido, Lula da Silva desbaratou todo o capital político que acumulou. Como escreveu o embaixador Francisco Seixas da Costa, depois de com aquela longínqua decisão de respeito pela lei ter "tirado" o Brasil da América Latina, faz agora que o país regresse ao ponto do mapa de onde afinal nunca tinha saído. Sobre a investigação judicial em curso não vale a pena dizer muito mais do que, no respeito pelos princípios elementares do Estado de direito, Lula é inocente até trânsito em julgado. Mas em política o que parece é. E, por estes dias, a conduta lulista não é muito diferente da dos coronéis corruptos que se eternizavam no poder para fugir à justiça. Em Portugal, por exemplo, onde vivemos tempos difíceis com um ex-primeiro-ministro indiciado por corrupção e outros crimes deploráveis para um servidor público, foram muito criticados em certos círculos o silêncio e a atitude distante de António Costa em relação à situação judicial do seu antigo chefe de partido, que fez sempre passar a narrativa de que está a ser vítima de um processo puramente político. Na verdade, e independentemente das motivações do agora chefe de governo, a consequência do distanciamento de Costa face ao processo contribuiu para a saúde do regime e prova que aprendeu com os erros cometidos no início do caso Casa Pia, enquanto líder parlamentar do PS. O que estas duas condutas revelam é, desde logo, a diferença entre uma democracia madura e consolidada e outra à beira do colapso, para gáudio dos saudosistas da ditadura militar. No Brasil, a vergonha passou a ter a cara de Lula. Este abuso de poder, contrário ao moralismo da esquerda, é criminoso e não tem qualquer espécie de perdão.

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