O conflito geopolítico e ao mesmo tempo tribal que decorre presentemente na Ucrânia criou um novo (ou velho?) fenómeno, cada vez mais inegável e incontornável: o recurso, por parte das democracias, a métodos fascistas, a fim de imporem os seus pontos de vista e conquistarem "simpatias" para a sua causa. É o que eu chamo de "demofascismo"..A recusa liminar em discutir a complexidade da situação na Ucrânia e em reconhecer que a história não começou no dia 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu o país vizinho, foi a primeira manifestação desse fenómeno. Seguiu-se-lhe a onda de russofobia que assolou o Ocidente, com a discriminação de todo e qualquer cidadão russo, o cancelamento de artistas e desportistas, a proibição de obras literárias russas nas escolas e outras aberrações..A essa tentativa de "desrussificação" a que assistimos, tão patética e delirante como o argumento da "desnazificação" usado por Putin, não escapam sequer algumas das mais reputadas autoridades ocidentais em termos de estratégia e liderança política que têm chamado a atenção para a insanidade da atual guerra na Ucrânia, como Kissinger ou a ex-chanceler alemã Ângela Merkel. Se não fossem de lamentar, as reações de alguns dos medíocres líderes ocidentais atuais aos alertas dessas figuras seriam motivo para umas boas risadas..Mas o "demofascismo" suscitado pela guerra da Ucrânia vai mais longe. O Ocidente (leia-se: a santa aliança entre os EUA-NATO-União Europeia) não esconde a sua irritação e mal-estar com o facto de a maioria demográfica mundial, em particular o Sul Global (África, Ásia e América Latina), manter uma posição de cautela em relação à guerra na Ucrânia, evitando cair na armadilha do discurso maniqueísta hegemónico (diferente de "maioritário")..O mais recente exemplo dessa irritação foi a aprovação pela Câmara de Deputados dos EUA, no passado dia 27 de abril de 2022, do "Countering Malign Russian Activities in Africa Act" (H.R. 7311). A medida autoriza o Departamento de Estado norte-americano a monitorar as ações de política externa da Federação Russa em África, incluindo as suas ações militares e outras manifestações "malignas", seja lá o que isso for. Não li (talvez por minha falha) em nenhum dos grandes jornais europeus que habitualmente consulto nenhuma referência a esse facto, mas o canal de televisão da África do Sul (SABC) divulgou uma peça completa sobre o assunto, a qual pode ser vista no YouTube..O saite (caro editor, deixe passar esse neologismo) de notícias etíope Borkena também publicou, no dia 31 de maio, uma matéria completa sobre esta medida aprovada pelo Congresso norte-americano. "O Congresso dos EUA não tem o direito de ditar quais devem ser as relações entre a Federação Russa e os Estados-membros da União Africana", lê-se no artigo, assinado por Abayomi-Azikwe. O autor não tem dúvidas de que o decreto aprovado pelos congressistas reforça o neocolonialismo em África..Pergunta-se: qual é a posição oficial dos países africanos em relação à guerra na Ucrânia? Apoiarão eles a invasão russa, tal como querem fazer crer os "demofascistas" atuais, recorrendo ao velho lema "quem não está comigo está contra mim"? Não. A posição africana é simples: é preciso encontrar uma solução diplomática para a guerra em questão..Os ideólogos ocidentais querem convencer-nos de que, na Ucrânia, está a travar-se uma guerra entre a democracia e a autocracia. O Sul Global não está convencido disso. Na verdade, a realidade político-ideológica na Ucrânia e na Rússia tem mais semelhanças e afinidades do que reza a propaganda, quer russa quer ocidental. Portanto, África não pode ser forçada a escolher um ou outro lado. Tal como defendeu Subrahmanyam Jaishankar, ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, no caso do seu país, África deve poder posicionar-se, relativamente a qualquer tema, de acordo com um balanço entre os seus valores e os seus interesses..Escritor e jornalista angolano Diretor da revista África 21