É preciso que os homens se ponham nos sapatos das mulheres

Quando finalmente chega a Portugal a onda do #MeToo, damo-nos conta de como ainda estamos longe de, coletivamente, conseguirmos abordar o tema pelo ângulo certo. Os comentários sucedem-se entre os pedidos de detalhe, numa deriva mais voyeurista do que verdadeiramente interessada, à perplexidade perante o facto de, aparentemente, os homens já não poderem ser "galãs", ou a confusão de temas e circunstâncias (um assédio na rua por um desconhecido é diferente de um assédio num contexto laboral). Mas há um denominador comum: uma parte muito relevante da sociedade, talvez a maior parte, ainda não consegue compreender o que se passa verdadeiramente quando uma mulher se sente assediada ou à beira de um assédio num contexto laboral. Essa circunstância desrespeita o mais profundo da sua dignidade, põe em causa direitos fundamentais básicos e inibe o seu pleno desenvolvimento como pessoa.

Na belíssima tetralogia A Amiga Genial, a dado passo, Elena Ferrante oferece-nos um relato impressivo e doloroso de assédio sexual num contexto fabril. Esse assédio não ficou na Itália do século passado. Continua entre nós. Nem sempre da mesma forma violenta e expressa, mas com subtilezas múltiplas que têm o perigo acrescido de induzir à confusão de papéis, e precipitarem a transformação da vítima em agente. Isto perante a incompreensão de homens e de mulheres, muitas que tiveram a sorte de nunca se verem colocadas em tais circunstâncias.

E quando os homens não compreendem, vale a pena desafiá-los para fazerem o exercício ao contrário. Quando vai a uma entrevista de emprego um homem pergunta-se sobre se a sua indumentária poderá ser lida como menos própria do ponto de vista de despertar algum estímulo sexual ou poder induzir uma abertura para um relacionamento diferente do meramente profissional? Não. Já as mulheres têm de pensar se a profundidade do decote é própria, se a saia está na altura certa, se os sapatos não serão demasiado altos ou se a maquilhagem é adequada. Porque tudo isto pode ter leituras e tresleituras que, de repente, e involuntariamente, colocam as mulheres na posição de "oferecidas" ou "estavam mesmo a pedi-las".

Felizmente nunca na minha vida profissional senti qualquer assédio. Mas várias vezes na vida senti que por ser mulher havia um conjunto de circunstâncias e de contextos em que a minha condição me impedia de tomar iniciativas que para os homens, pelo menos entre homens, seriam perfeitamente normais. Precisamente com o receio de ser mal interpretada. Analisado ao detalhe, receio que até poderia não fazer sentido do ponto de vista racional, mas estava lá.

Há um caminho muito grande a percorrer para que mulheres e homens se possam relacionar com respeito recíproco, de igual para igual. Para poder ser trilhado, é necessário que todos ganhemos consciência do ponto em que estamos. Temos de estar gratos às mulheres que hoje levantam a voz e contam a sua experiência. E devemos ter a humildade, em particular os homens, de nos colocarmos nos seus sapatos, de vestirmos as suas saias e então podermos avaliar o seu comportamento. O que for menos do que isto resume-se a repetir, mesmo se inconscientemente, estereótipos arreigados. Desengane-se quem acha que os assuntos não estão ligados. O tratamento inaceitável da presidente da Comissão Europeia na Turquia ou os comentários sobre o batom de uma candidata presidencial e o #MeToo são declinações do mesmo tema.

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do Mestrado em Direito e Economia do Mar

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